BIODIVERSIDADE ACREANA
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BIODIVERSIDADE E SOCIODIVERSIDADE ACREANA SOB A ÓTICA CIENTÍFICA
19 de março de 2008
O LEGADO TUPI NA FLORA E NA FAUNA ACREANAS
Contribuição para o ensino da língua portuguesa

Revista Ramal de Idéias
No. 1, 2008, Universidade Federal do Acre
ISSN: 1982 7768

Jane de Castro Nogueira
Professora do Departamento de Letras da Universidade Federal do Acre.
E-mail: Janenogueira_ac@yahoo.com.br

RESUMO: O presente estudo tem como base a investigação descritiva, no nível qualitativo. Tem por objetivo descrever palavras de origem tupi, no uso regional, local e/ou nacional como forma de registro, para as gerações futuras, de dados que poderão se perder no tempo. O estudo está centrado na História da Língua Portuguesa e na influência tupi na formação do português brasileiro; faz uma descrição de palavras da flora e da fauna acreana, com verbetes abonados com fragmentos colhidos no uso corrente e dispostos por campos semânticos ou idéias afins: flora alimentícia, medicinal, madeireira, artesanal e silvestre; fauna terrestre, aérea e aquática. Dessa forma, 200 verbetes foram trabalhados por meio de cotejamento em quatro dicionários, sendo um geral, um histórico e dois específicos, no intuito de verificar-se a existência ou a inexistência do registro dessas palavras. Como resultado, obteve-se maior ocorrência de palavras no campo semântico da fauna, confirmando uma das hipóteses do presente estudo.
Palavras-chave: Lexicologia, Lexicografia, Acre.

ABSTRACT: The present study has as base the descriptive investigation, in the qualitative level. The objective is the describing words of Tupi origin, in the regional, place and/or national use as registration form for the future generations of data that can be lost in time. The study is centered in the Portuguese History Language and its influence from Tupi in the formation of Brazilian Portuguese. It does the description of words from flora and fauna found in Acre with entries obtained from fragments collected in the average use and displayed by semantic fields or ideas alike: nutritional, medicinal, wood, craft and wild flora, terrestrial, aerial and aquatic fauna.
This way, 200 entries were worked with comparing them in four dictionaries being one of them a general, one historical and two of them with specific words in order to verify the actual register or not of those words. As a result, the largest occurrence of words from fauna was found confirming one of the hypotheses of the present studying.
Key words: Lexicology, Lexicography, Acre.

1 INTRODUÇÃO

A presente investigação, aplicada no nível descritivo e no método qualitativo, faz parte da dissertação de Mestrado intitulada O legado tupi na flora e fauna acreanas: contribuição para o ensino de língua portuguesa. O estudo nasceu do interesse crescente da autora em descrever a linguagem dos povos indígenas do Acre, especificamente nos campos da flora e da fauna. Assim, para esse propósito, a pesquisa se divide em duas etapas: uma parte teórica e uma parte prática. Na teórica, consta uma pesquisa preliminar, efetivada a partir do levantamento de títulos sobre a temática delimitada e da revisão da literatura específica. A coleta dos dados foi feita no acervo do Centro de Estudos Dialetológicos do Acre - CEDAC e na pesquisa complementar de campo, por meio de questionário. Na parte prática, procurou-se descrever as denominações da flora e da fauna, com verbetes abonados com fragmentos colhidos no uso corrente e dispostos por campos semânticos ou idéias afins: flora alimentícia, medicinal, madeireira, artesanal e silvestre; fauna terrestre, aérea e aquática.

Dessa forma, investigou-se o legado tupi no português americano, procurando responder às seguintes indagações: a) Qual a contribuição do legado tupi para o ensino da língua portuguesa no Acre? b) Que fatores contribuem para o distanciamento ou perda do legado indígena, na feição regional da língua portuguesa? c) Serão as palavras da flora e da fauna do Acre, na maior parte, um legado tupi?

Foi com o olhar debruçado na realidade amazônica, e movida pelo interesse em trilhar os caminhos da História da Língua Portuguesa, no Brasil, sob a luz do método Wört und Sachen (Palavras e Coisas), enriquecido pelas contribuições lexicográficas, amparadas por ideologias semânticas e pragmáticas, que foi empreendido um levantamento de natureza lexical, com base no legado indígena, no campo da flora e da fauna acreanas, objetivando contribuir, sobremaneira, com o processo educacional e para a compreensão mais ampla da cultura amazônica, em especial a do Acre, no que diz respeito ao uso da língua portuguesa, na sua feição regional.

2 O DINAMISMO DA LÍNGUA

Sendo a língua “instrumento e produto do trabalho lingüístico”, como diz Honório (1986, p.18), é através da linguagem que se veicula a vida humana nas comunidades sociais. Essa veiculação denota a riqueza do legado tupi na denominação de plantas e animais brasileiros, como um documento vivo dessa influência, na constituição do português da América. Muito embora esse conhecimento seja um fato presente, em meio aos estudiosos da ciência da linguagem, indagam-se qual a extensão e intensidade da influência tupi no português brasileiro.

Em resposta às indagações sobre a natureza denominativa do continente americano, a história do descobrimento do Brasil registra que a língua tupi, utilizada por três séculos e meio, no Brasil-Colonial, sempre foi vista como uma língua pobre, sem flexão nominal e verbal. Todavia, a sua utilização como língua corrente (língua geral) teve não apenas o propósito de facilitar a colonização do país e sim, também, nomear todas as coisas do novo mundo. Os relatos mostram que ao longo do tempo em que o tupi foi falado - no ir e vir interativo do europeu com a gente nativa, no processo de ocupação e povoamento do território brasileiro - deixou marcas profundas na língua e na cultura do Brasil.

A história externa da língua portuguesa remete à lembrança que, antes dessa terra ser conhecida e explorada pelos “homens brancos”, as coisas do novo mundo já possuíam nomes para designar o ambiente, como os rios, as montanhas, os lagos, os animais, as plantas. É como acrescenta Geraldi (1996, p.45):

[...] a linguagem é fundamental no desenvolvimento do homem; ela é condição sine qua non na apreensão de conceitos que permitem aos sujeitos compreender o mundo e nele agir; ela é ainda, a mais usual forma de encontros, desencontros e confrontos de posições, porque é por ela que estas posições se tornam públicas, e por isso, é crucial dar à linguagem o destaque que de fato tem: a de pensá-lo à luz da linguagem.

Compreende-se, nesse contexto, que o ser humano é o agente na criação de sua realidade, seja ela branca, negra ou índia. Pois o ato de expressar o mundo, construir coisas, buscar formas diversas de viver, não poderia configurar-se sem a presença da linguagem. É com essa faculdade que o ser humano constrói a sua cultura, num acúmulo de sabedoria desde o princípio até a contemporaneidade.

A região da Amazônia brasileira é aquela que apresenta maior concentração de falantes de línguas indígenas. Segundo o Instituto Sócio-ambiental (ISA), são mais de 60 línguas utilizadas por sociedades indígenas distintas. Só nas áreas indígenas localizadas no Estado do Amazonas são faladas mais de 50 línguas diferentes. Estes idiomas vêm sendo utilizados por um contingente de cerca de 150.000 índios, dado significativo para a implementação de políticas eficazes sobre culturas e línguas amazônicas, seus conhecimentos e preservação.

Segundo grandes historiadores, o Brasil foi finalmente “descoberto” e, desde então, a História passou a ter uma maior complexidade. Todavia, por todo o Império, incluindo D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II, pouco foi feito pela educação das classes sociais brasileiras de menor poder aquisitivo, e muitos reclamavam de sua má qualidade. Com a proclamação da república, o Brasil passou por várias reformas, mas nenhuma delas foi capaz de dar um novo formato à educação brasileira. Até os dias de hoje, muitas mudanças têm sido feitas, a cada período, no planejamento educacional, mas a educação continua a ter as mesmas características impostas em todos os países do mundo, que é a de manter o status quo para aqueles que freqüentam os bancos escolares.

Foi assim que o Estado Brasileiro-Europeu vislumbrou uma escola para índios, por meio da aquisição dos conhecimentos e dos valores da sociedade ocidental. A partir desse momento, as línguas indígenas serviram tanto como tradução, como meio facilitador na catequização dos povos. Esse processo fazia parte da política de colonização da época e tinha como corrente a lógica do desenvolvimento biológico, ou melhor, significava dizer que as sociedades indígenas, sem escrita, atrasadas, primitivas, seguiriam uma evolução biológica até atingirem a “civilização”.
De outra parte, por muito tempo, a educação escolar indígena permaneceu sob a responsabilidade de missionários de diversas ordens religiosas, apoiados pelo Estado brasileiro, espelhando, assim, uma segunda teoria que tendia para negar o passado histórico, esquecer o conhecimento milenar e a alma da sociedade indígena. E por sua vez, a extinção de um grande número de índios, resultou na perda de elementos culturais, como a língua e o território. Com isso, o elemento indígena foi obrigado, muitas vezes, a negar a própria identidade, para ser tratado como brasileiros. Posteriormente, no início do século XX, surge a instituição religiosa com a missão de educar os índios, utilizando as línguas indígenas para o convertimento religioso e civilizatório, com o intuito de adotar normas gramaticais e sistemas de tradução das histórias bíblicas, partindo dos valores, princípios e conceitos da sociedade ocidental.

Essa herança, deixada pelos colonizadores, influenciou, sobremaneira, a visão do Estado, através de legislação e de política indigenistas. Então, a partir da década de setenta, aconteceram mudanças nos contextos nacional e internacional, com a mobilização e reorganização dos povos indígenas, apoiados por entidades e demais segmentos não-governamentais, contrariando as ações integracionistas do Estado brasileiro.

A escola, por sua vez, foi vista dentro dos direitos humanos e sociais, reconhecida a diversidade cultural, através das experiências sócio-políticas, lingüísticas e pedagógicas, na valorização do saber tradicional do país. Nesse cenário nacional de mudanças de paradigma da educação escolar, o ensino institucionalizado surgiu como verdadeiro instrumento de consolidação dos direitos conquistados.

No contexto atual, num país como o Brasil, pluricultural e multi-étnico, os segmentos direcionam suas atenções à reflexão da história, por meio da educação, usada como instrumento nas relações interculturais, baseada no diálogo entre a própria educação e a diversidade cultural de seu povo.

Compreende-se, então, no contexto de conquista e reconquista americanas, que da presença índia e de outros povos resultou a língua, nesse caso um português modificado na pronúncia e no léxico. E, ainda, o tupi legou ao português numerosas palavras correntes no Brasil, tais como: abacaxi, arapuca, caipira, caraíba, guariba, jacaré, cambembe. Por assim dizer, a denominação da flora e da fauna brasileiras tem no tupi a sua origem.

Vê-se com isso, que o estudo científico de uma língua é fundamentalmente o estudo da cultura de que ela é a forma e o produto. Estudar o português do Brasil é, pois, em grande parte, estudar a história da formação nacional. O Brasil foi descoberto em 1500 e sua colonização só teve início a partir de 1532. As ocupações iniciais foram, na descrição dos filólogos, duas ao Sul e três ao Norte. Foi uma ocupação litorânea e elas só ocorreram pelo fracasso comercial de Portugal com a Índia. O tupi foi a língua das entradas e bandeiras e por onde esse povo passava tudo era batizado: flora, fauna, acidentes geográficos etc.

Daí, compreende-se que o sistema lingüístico que permite a intercomunicação entre os brasileiros, atualmente, é realmente um produto histórico. Ele resultou da experiência acumulada pelas gerações que o antecederam. De geração a geração, ele continua evoluindo, como um produto da ação do homem, e podendo ser modificado pelo próprio homem. Ou melhor, a evolução de uma língua tem muito a ver com a evolução sócio-econômica das comunidades. Por isso, a língua não pode ser controlada nem policiada, pois ela é inexorável, independente do indivíduo.

Nesse sentido, a língua viva, dinâmica, resultante das vicissitudes históricas por que passou e continua passando, funciona nas ruas, em casa, onde o povo continua se comunicando como sempre se comunicou. A exemplo, cita-se o Paraguai, onde os tiranetes do passado proibiram o uso do guarani nas escolas. Isso comprova, segundo Couto (1986 p.34), que a evolução lingüística não se faz por decreto. Ela está sujeita a leis históricas inexoráveis. Quer dizer, se as forças e as relações de produção apresentam um ritmo acelerado ou lento de desenvolvimento, o mesmo sucederá com o desenvolvimento lingüístico. Se forem escassas e precárias, a cultura será fraca e bastante vulnerável às importações, tanto tecnológicas quanto culturais e lingüísticas. A língua é, pois, o reflexo mais direto, é o termômetro mais sensível da vitalidade e das oscilações de uma cultura. Para ilustrar, tem-se na Amazônia Sul-Ocidental uma população cercada, há milhares de anos, por diferentes povos nativos que fazem da região, no interior das matas e nas beiras de rios e igarapés, o seu território de viver.

A ocupação da Amazônia e do Brasil Central, a construção de grandes estradas, como a Belém-Brasília, e implantação dos grandes projetos econômicos, geraram um verdadeiro massacre aos índios. Mas, mesmo assim, segundo dados, existem os chamados índios isolados, isto é, tribos sem contato com a sociedade brasileira. Muitos deles estão na Amazônia, fugindo de empresas, cidades e estradas que avançam por suas terras. Outros vivem em terras invadidas por não-índios. Ainda assim, muitos mantêm seus costumes, tradições e formas de vida, embora tenham incorporado novos hábitos. São comunidades muito diferentes do resto da sociedade, com origem histórica, cultura e organização econômica própria e diferenciada.

O Brasil, com sua diversidade cultural singular, é um país fértil em palavras nascidas na língua tupi, vocábulos que provavelmente não existem em outros países lusófonos. São palavras tidas como brasileirismos de origem tupi, outras regionais e/ou locais, como se mostram nos exemplos: capim, tajá, tiririca, samambaia, cipó, abacaxi, araçá, abiu, açaí, ananás, mandioca, aipim, macaxeira, sapé, ipê, imbuia, capeba, jucá, carnaúba, peroba, cumarú, paxiúba, cajarana, jacarandá, araticum, cipó, pitanga, maracujá, jabuticaba, jatobá, jenipapo, jerimum, maniva, tucumã, taioba, urucum, caju, capivara, quati, tatu, sagüi, urubu, sanhaçu, pipira, araponga, urubu, curió, sabiá, caboré, curica, jaçanã, jacamim, socó, caninana, cutia, cutiara, guariba, tracajá, maracajá, jaguatirica, paca, pacu, jacaré, tambaqui, surubim, bodó, cará, curimatã, sarapó, jacundá, jundiá, lambari, mandim, mapará, piaba, piau, pirarara, pirarucu, piranha, piranambu, tambaqui, traíra.

Descrever o legado tupi, dentro das regiões acreanas, no campo da flora e da fauna é caminhar no sentido de ter uma maior compreensão da comunidade regional e, assim, abrir uma trilha para que outros estudiosos retomem e alarguem esta tarefa que não se esgota aqui, e leguem às futuras gerações dados que podem se perder no tempo, por força do rolo compressor do chamado “progresso”.

3 ANÁLISE E RESULTADOS

Dos resultados da presente pesquisa, tem-se um total de 200 palavras selecionadas da flora e da fauna acreana, de origem indígena. Desse total, tem-se do CEDAC um acervo de 52 palavras com sua contextualização e 148 palavras em pesquisa complementar, obtidas por meio de questionário, com pessoas residentes no 1º e 2º Distritos de Rio Branco-Acre.

Dos quatro dicionários selecionados e cotejados (um dicionário geral, um dicionário histórico e dois dicionários específicos), encontram-se 186 palavras registradas, sendo que o dicionário geral registra a maior ocorrência. Assim, entende-se que a pesquisa das palavras denominadoras da flora e fauna acreanas, baseada em dicionário, denominado ‘geral', é abrangente pela própria proposta autor, embora acredite-se que o dicionário específico ou regional esteja comprometido ou deveria estar com um maior número de vocábulos.

Da distribuição por campos semânticos da flora (alimentícia, medicinal, madeireira, artesanal e silvestre), têm-se 89 palavras cotejadas, sendo a maior ocorrência na flora alimentícia, com 38 palavras; da fauna (terrestre, aérea e aquática), somam-se 111 palavras registradas nos dicionários, sendo o maior destaque na fauna aquática com 49 palavras e o segundo destaque coube à fauna terrestre com 37 palavras. Quanto à grande ocorrência de palavras tupi, ser no campo da fauna, não deixa dúvida, pois a sua produção e reprodução estavam eivadas na única forma de sobrevivência dos indígenas: a caça e a pesca.

Nesse sentido, é possível notar a contribuição tupi ao português brasileiro, tanto no campo da flora quanto da fauna, ao tempo em que se observa, nesta descrição, maior número de vocábulos no campo da fauna. Esta ocorrência justifica-se não apenas pela riqueza das espécies nesse campo, mas, sobretudo, pelo gosto alimentar e pela forma de sobrevivência dos amazônidas, dado comprovado no na pesquisa.

Na análise, no tocante ao registro das palavras do tupi, nos dicionários, vê-se, por meio do dinamismo da língua, a impossibilidade de os dicionários comportarem todas as palavras em uso. Essa ausência ocorre: a) por força da imensidão territorial; b) ausência de pesquisas sistematizadas sobre a linguagem; perda de uma forma por outra; c) substituição de uma forma por outra; d) mudança do comportamento, hábitos e costumes da sociedade; e) caráter político da modernidade; f) potencial sócio-econômico dos mais fortes influenciando a cultura regional e, por sua vez, influenciando a construção da língua no que diz respeito às novas formas de ler e dizer do mundo atual.

Partindo das considerações, na presente análise, fica evidente que, ao se estudar o léxico de uma língua, pode-se, também apreender a realidade do grupo que a utiliza: sua cultura, sua história, seu modo de vida, sua visão de mundo. E, utilizando-se do léxico, o ser humano sempre atribuiu nome a tudo que o cerca – às coisas, às pessoas, ao espaço físico em que vive, às espécies animais e vegetais, confirmando, assim, a teoria vygotoskyana de que a linguagem e o desenvolvimento sócio-cultural determinam o desenvolvimento do pensamento.

Dessa forma, a análise dos dados deixa ver que as trocas entre a língua e o mundo são feitas essencialmente pelo léxico. Os sistemas de categorização semântica variam de língua para língua, em função da ligação com a cultura. Isto é, tudo que existe na cultura, termo tomado no sentido antropológico, será fixado e veiculado pela língua, como denota o estudo aqui empreendido.

4 CONCLUSÃO

Ao concluir, indaga-se, qual a repercussão, no campo da linguagem, de palavras não dicionarizadas e denominativas de espécies animais e vegetais na Amazônia brasileira. Encontraram-se palavras denominativas do universo da flora e da fauna, em largo uso na região, e que não constam nos dicionários gerais e nem nos específicos da língua portuguesa. Tais como: cacauí, patoá, peruá, ucuúba, murici, tatajuba ,bodó curica, lambari, matapiri, moló, piroaca, uruanã, sipaúba , bacorim, cutiara.

Por fim, após a análise dos dados, chega-se à conclusão que a maior ocorrência do legado tupi se dá no campo da fauna, o que parece evidente, pois além da localização de suas moradias, além desses povos facilitarem a sua produção e reprodução, havia, ainda, um outro fator que confirmava esse dado, isto é, estas formas de vida estavam eivadas na única forma de sobrevivência dos indígenas: a caça e a pesca. A perda, o distanciamento ou substituição da denominação das palavras, no campo da flora e da fauna de origem tupi acontece em decorrência da mudança do comportamento, dos hábitos e dos costumes da sociedade, bem como, pelo caráter político da modernidade. Por fim, o potencial sócio-econômico dos mais fortes, dos dominantes, direciona a influência cultural do povo e, por sua vez, a língua.

Considerando-se, apenas 200 lexias, num imenso universo denominativo da flora e fauna regional, vê-se o muito que há para se fazer, no Brasil, em especial na região Norte, no campo da Lexicologia e Lexicografia. Pois, se numa breve descrição como esta, com 200 verbetes, encontraram-se mais de 14 deles não registrados nos dicionários, avalie-se o que acontecerá numa investigação exaustiva de descrição dos componentes da flora e da fauna até então catalogados ou daqueles conhecidos pelas comunidades ribeirinhas regionais. É uma tarefa legada ao futuro, num próximo trabalho de doutoramento, e um contributo à descrição do português brasileiro, em especial na feição amazônica.

Compreendeu-se, na presente pesquisa, que o estudo sobre o legado de origem tupi à língua portuguesa do Brasil, quer numa perspectiva sincrônica, quer diacrônica, é essencial para a compreensão das comunidades que a falam. Pois somente o conhecimento da constituição do léxico da língua permitirá uma produtividade, em consciência, evitando a discriminação que será sempre mais social do que lingüística.

Sapir (1966, p. 46), já afirmava que não se pode avaliar uma língua a partir do vocabulário que dela se extrai. Se uma língua possui mil palavras e seus falantes sentirem necessidade de criar outras, usarão dos mesmos recursos: empréstimos, neologismos ou construções de metáforas. Reveste-se o léxico, então, de caráter semiótico inerente à sua função de construir e reconstruir continuamente um sistema de mundo através da língua.

O léxico apresenta, pois, amplitude capaz de compor um sistema de mundo, caso específico do espaço geográfico acreano, ele é o domínio da língua menos especificamente lingüístico e se reporta ao universo referencial, físico e cultural em que se situa o ser humano, seja ele rural ou urbano. Mas a discussão dessa temática não se encerra aqui, transcende o estudo ora apresentado, considerando o muito que se tem por fazer no campo da descrição lingüística, em especial das línguas nativas.

Como recomendação, sugere-se que as instituições de ensino invistam em ações que favoreçam a preservação da natureza, por meio do acesso, ou melhor, do contato da palavra e coisa de nossa região, visando: a) ampliar o conhecimento do legado de origem tupi, com origem e significado das palavras de influência indígena e/ou inserindo-as nos currículos do ensino fundamental, médio, alfabetização e ensino superior; b) possibilitar aos professores de línguas e a seus alunos o conhecimento das palavras de origem tupi, por meio de textos e histórias da realidade regional; c) estimular a pesquisa, fazendo cumprir, por sua vez, a proposta do Ministério de Educação do Brasil, de que a pesquisa seja voltada para a realidade regional em que está inserida.

REFERÊNCIAS

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posted by Evandro Ferreira @ 11:13  
2 Comments:
  • At 2:15 PM, Anonymous Anônimo said…

    Olá Jane, eu sou Geraldo de Caicó mas, resido em Rondônia. Sou professor de línguas, poeta, compositor e cordelista. Apreciei demais seu trabalho tematizado em focos de termos tupis utilizados na região norte especificamente o povo acreano. Faço pesquisa de nomes da fauna e flora amazônica e chamou-me atenção sua temática desenvolvida em pesquisa. Parabéns pela tese.
    Abraços
    Geraldo Anízio
    geraldo_anizio@hotmail.com
    www.geraldoanizio.zip.net

     
  • At 8:20 AM, Anonymous Jane Nogueira said…

    Olá Prof.Geraldo,
    Peço desculpas, pois não tinha conhecimento até então desta publicação. Agradeço de coração as suas observações. No momento estou em Porto-Portugal fazendo o doutoramento. Pretendia continuar o trabalho de pesquisa dessa linha, mas obtive resistência dos professores de Linguística. Soube que antes do final do semestre fizeram uma reunião para tratar desse assunto; espero que no início do próximo semestre eu tenha resposta positiva para continuar o meu projeto. Um grande abraço.
    Jane Nogueira
    p/contato: janenogueira_ac@yahoo.com.br

     
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Nome: Evandro Ferreira
Cidade: Rio Branco-Ac, Brazil
Quem sou eu: Acreano, nascido em Rio Branco, Pesquisador do Inpa-Ac e do Parque Zoobotânico da UFAC. Mestrado em Botânica no Lehman College, New York, USA, e Ph.D. em Botânica Sistemática pela City University of New York (CUNY) & The New York Botanical Garden (NYBG). Me escreva: evandroferreira@hotmail.com
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O objetivo deste blog é publicar resumos, e, quando possível, links para os textos completos, de artigos científicos publicados e que abordem, direta ou indiretamente, temas relacionados com a biodiversidade e a sociobiodiversidade acreana. A fonte principal dos artigos é o site SCIELO BRASIL, ou outras quando indicadas. Havendo interesse por alguns dos artigos publicados no blog, sugerimos que os leitores entrem contacto direto com os autores.

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