BIODIVERSIDADE ACREANA
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BIODIVERSIDADE E SOCIODIVERSIDADE ACREANA SOB A ÓTICA CIENTÍFICA
26 de março de 2009
Quím. Nova vol.25 no.6 São Paulo Nov./ dec. 2002

Revisão

DDT (DICLORO DIFENIL TRICLOROETANO): TOXICIDADE E CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL ¾ UMA REVISÃO


Claudio D'Amato, João P. M. Torres* e Olaf Malm
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Centro de Ciências da Saúde, 21949-900 Rio de Janeiro - RJ

*e-mail: jptorres@biof.ufrj.br

Recebido 27/9/01; aceito em 19/3/02


DDT (DICHLORODIPHENYLTRICHLOROETHANE): TOXICITY AND ENVIRONMENTAL CONTAMNATION - A REVIEW. DDT and others organochlorine insecticides are very persistent substances. Clinical symptoms of intoxication have been reported in humans, although the main problem concerning such substances is bioaccumulation and biomagnification along throphic chains, leading to contamination of top predators and humans after them. In this review these characteristics are described, as well as some aspects of the control of vector borne diseases, like leishmaniasis and malaria, which were until recently, controlled by the health authorities using DDT.

Keywords: DDT; environment; fish.

INTRODUÇÃO

O diclorodifeniltricloroetano (DDT) é o mais conhecido dentre os inseticidas do grupo dos organoclorados. Estes pesticidas incluem os derivados clorados do difenil etano (onde se inclui o DDT, seus metabólitos DDE e DDD, e o metoxicloro); o hexaclorobenzeno (BHC); o grupo dos hexaclorocicloexanos (a-HCH, b-HCH, d-HCH e g-HCH ou lindano); o grupo dos ciclodienos (aldrin, dieldrin, endrin, clordano, nonaclor, heptaclor e heptaclor-epóxido), e os hidrocarbonetos clorados (dodecacloro, toxafeno, e clordecone)1,2.

O DDT é considerado uma das substâncias sintéticas mais utilizadas e estudadas no século XX.

HISTÓRICO

As propriedades inseticidas do DDT foram descobertas em 1939 pelo entomologista suíço Paul Müller, o que lhe valeu posteriormente o Prêmio Nobel da Medicina devido ao uso do DDT no combate à malária3.

O DDT foi utilizado na Segunda Guerra Mundial para prevenção de tifo em soldados, que o utilizavam na pele para combate a piolhos. Posteriormente foi usado na agropecuária, no Brasil e no mundo, dado seu baixo preço e elevada eficiência4.

A produção em grande escala iniciou-se em 1945, e foi muito utilizado na agricultura como pesticida, por cerca de 25 a 30 anos. Tanta foi a quantidade que se estimou que cada cidadão norte-americano ingeriu, através dos alimentos, uma média de 0,28 mg por dia em 19505. Outra função para seu uso foi em programas de controle de doenças tropicais, inclusive no Brasil, como malária e leishmaniose visceral6.

Foi a descoberta do DDT que revolucionou os conceitos de luta contra a malária. Sua eficácia contra formas adultas dos mosquitos e seu prolongado efeito residual fizeram com que no período de 1946-1970 todos os programas de controle se apoiassem quase que totalmente em seu emprego7.

Em 1962, Rachel Carson sugeriu em seu livro "Primavera Silenciosa", que o amplo uso do DDT poderia ser a principal causa da redução populacional de diversas aves; muitas delas seriam as de topo de cadeia alimentar, como o falcão peregrino, e a águia calva ("bald eagle"- Haliaeetus leucocephalus), animal símbolo dos EUA. Este livro é considerado a primeira manifestação ecológica contra o uso indiscriminado do DDT8.

Nos EUA, o uso cresceu, chegando a até 35.771 toneladas produzidas em 1959, principalmente para exportação, chegando a 81.154 toneladas em 1963. Então a produção começou a declinar, sendo que a quantidade produzida para uso no país em 1969 não passou de 13.724 toneladas; entretanto, continuou sendo fabricado em outros países, sendo sua produção mundial, em 1974, de 60.000 toneladas3.

A Suécia foi o primeiro país do mundo a banir o DDT e outros inseticidas organoclorados, em 1º de janeiro de 1970, com base em estudos ecológicos. Pouco depois foi seguida por outros países, excetuando-se o uso em programas de controle de doenças3.

No Brasil, as primeiras medidas restritivas se deram em 19719, com a Portaria n.o 356/71, que proibiu a fabricação e comercialização de DDT e BHC para combate de ectoparasitos em animais domésticos no país, obrigando os fabricantes a recolherem os produtos, mas isentou os produtos comerciais indicados como larvicidas e repelentes de uso tópico; e com a Portaria nº 357/7110, que proibiu em todo o território nacional o uso de inseticidas organoclorados em controle de pragas em pastagens.

Estes atos fundamentaram-se:

- na formação de resíduos tóxicos na carne e no leite de animais domésticos;

- sua acumulação após tratamentos repetidos;

- no prejuízo que a ocorrência destes resíduos acarretava às exportações de produtos de origem animal devido a medidas restritivas impostas por países importadores;

- e nas recomendações da FAO e OMS para que o uso de DDT e BHC fosse substituído por outros produtos.

Em 1985 proibiu-se em todo o território nacional a comercialização, o uso e a distribuição de produtos organoclorados destinados à agropecuária. Mas os inseticidas organoclorados continuaram sendo permitidos em campanhas de saúde pública no combate a vetores de agentes etiológicos de moléstias (malária e leishmaniose), bem como em uso emergencial na agricultura, a critério do Ministério da Agricultura. Também manteve-se a permissão do uso de iscas formicidas à base de aldrin e dodecacloro, e do uso de cupinicidas à base de aldrin para reflorestamento11.

No Brasil, seu uso em saúde pública ficou sob responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde (atual FUNASA), em seu Programa Nacional de Controle de Vetores. A última compra efetuada pelo órgão foi um lote de 3 mil toneladas em 1991, para o controle de Anopheles darlingi na Amazônia6.

Em 1995, foi publicado pela OMS um informe técnico declarando que o DDT pode continuar sendo utilizado no controle dos mosquitos vetores de malária e outras doenças transmitidas por artrópodes, desde que se cumpram as seguintes condições:

- seja empregado unicamente em interiores;

- seja eficaz;

- sejam adotadas as regras de segurança necessárias;

- sejam levados em conta o custo do produto a ser utilizado; a disponibilidade de inseticidas alternativos e a possibilidade do aparecimento de insetos resistentes12.

Historicamente, a América do Sul é considerado o continente em que houve o mais pesado uso de DDT, além de toxafeno e lindano13.

PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS

O termo DDT refere-se ao produto 1,1'-(2,2,2-tricloroetilideno) bis[4-clorobenzeno]), ou 1,1,1-tricloro-2,2-bis-(p-clorofenil) etano14. O termo também é aplicado a produtos comerciais constituídos principalmente pelo isômero p,p'- DDT, com proporções menores de outros análogos. O inseticida DDT é constituído, em geral, pela seguinte formulação: p,p'- DDT (77,1%), o,p'- DDT (14,9%), p,p'- DDD (0,3%), o,p'- DDD (0,1%) e impurezas (3,5%). Todos os isômeros são substâncias sólidas, brancas, inodoras e insípidas, com a fórmula empírica C14H9Cl515 .

O ponto de fusão do p,p'- DDT é 109 ºC, com pressão de vapor 2,53 x 10-5 Pa (1,9 x 10-7 mmHg) a 20 ºC 15. Possui hidrossolubilidade bastante baixa, na ordem de 1µg/L, tendo porém elevada lipossolubilidade, com coeficiente de partição octanol/água (Kow) igual a 9,6 x 105 16. A solubilidade em solventes orgânicos encontra-se na seguinte proporção (g/100 mL): benzeno (106), ciclohexanona (100), clorofórmio (96), éter de petróleo (10), etanol (1,5)15.

Ao perder uma molécula de HCl, por degradação biológica ou ambiental, o p.p'-DDT forma o metabólito 2,2-bis-p-clorofenil-1,1-dicloroetileno, conhecido como DDE. Este composto é ainda mais resistente às degradações que o DDT. Outro metabólito importante formado é o DDD, 2,2-bis-p-clorofenil-1,1-dicloroetano. Há ainda outros: DDMU, DDMS, DDNU, DDOH e DDA3. Este último metabólito é o único que não é lipossolúvel, sendo eliminado pela urina dos seres vivos. O DDE, por ser o mais persistente em organismos vivos, pode servir como indicador de exposição dos seres vivos ao DDT como, por exemplo, peixes de um rio contaminado17.

TOXICIDADE DO DDT

Embora o DDT atravesse facilmente o exoesqueleto quitinoso dos insetos, ele é pouco absorvido pela pele humana, o que explica sua relativa baixa toxicidade a nível tópico. O ser humano pode ser contaminado por exposição direta (inalação) ou por alimentos contaminados com DDT e outros pesticidas organoclorados. Sendo lipossolúveis, possuem apreciável absorção tecidual. São facilmente absorvidos pelas vias digestiva e respiratória. Devido à grande lipossolubilidade e à lenta metabolização, os organoclorados acumulam-se na cadeia alimentar e no tecido adiposo18.

Os pesticidas organoclorados, entre os quais inclui-se o DDT, atuam sobre o sistema nervoso central, resultando em alterações de comportamento, distúrbios sensoriais, do equilíbrio, da atividade da musculatura involuntária e depressão dos centros vitais, particularmente da respiração18.

Os efeitos do DDT no organismo ocorrem depois de atuarem sobre o equilíbrio de sódio/potássio nas membranas dos axônios, provocando impulsos nervosos constantes, que levam à contração muscular, convulsões, paralisia e morte. A intoxicação aguda nos seres humanos caracteriza-se por cloracnes, na pele, e por sintomas inespecíficos, como dor de cabeça, tonturas, convulsões, insuficiência respiratória e até morte, dependendo da dose e do tempo de exposição3.

Em casos de intoxicação aguda, após 2 h surgem os sintomas neurológicos de hiperexcitabilidade, parestesia na língua, lábios e membros inferiores, desconforto, desorientação, fotofobia, cefaléias persistentes, fraqueza, vertigem, alterações de equilíbrio, tremores, ataxia, convulsões tônico - clônicas, depressão central severa, coma e morte18.

Os sintomas específicos podem ocorrer em caso de inalação ou absorção respiratória, como tosse, rouquidão, edema pulmonar, irritação laringotraqueal, rinorréia, bradipnéia, hipertensão e broncopneumonia (esta última uma complicação freqüente)18.

Os pacientes atendidos no Centro de Controle de Intoxicações (CCI) do Hospital Universitário da UNICAMP, no período de janeiro de 1984 a junho de 1985, devido a intoxicações por inseticidas, atingiram 30% do total, equivalendo a 592 casos. Dentro deste grupo, 141 casos (23,8%) eram por pesticidas organoclorados19. Isto ocorreu antes da proibição da comercialização e uso de inseticidas organoclorados pelo Governo Federal11.

As manifestações crônicas consistem em neuropatias periféricas, incluindo paralisias, discrasias sangüíneas diversas que podem até ser consequências de aplasia medular, lesões hepáticas com alteração das enzimas transaminases e fosfatase alcalina, lesões renais e arritmias18.

Foi verificado em camundongos uma incidência aumentada de tumores hepáticos, após uma exposição a altas doses, por longo prazo. Embora não tenha se verificado o mesmo com outros animais como ratos, cães, hamsters ou macacos20. O DDT é um promotor de tumores, isto é, ele não causa os efeitos genéticos que culminam com o surgimento das neoplasias, mas potencializa a divisão das células neoplásicas que já tenham surgido. Também foi demonstrada, a nível celular, inibição das comunicações intercelulares em forma de placa, denominadas junções "gap", presentes na membrana das células normais20. Estas junções não se encontram em células tumorais. Ao perdê-las, as células não são mais inibidas em sua divisão ao entrar em contato com outros tecidos, replicando-se então indefinidamente21.

Em um estudo sobre a associação da presença do metabólito DDE no tecido adiposo de pacientes com 6 tipos de câncer (fígado, pâncreas, seio, útero, mieloma múltiplo e linfoma não Hodgkin), os resultados encontrados por Cocco et al.22 não indicaram correlação para a maioria deles. Mas, embora não se tenha encontrado correlação positiva entre câncer hepático e DDT, em pessoas negras esta correlação apareceu no segmento formado por indivíduos brancos. Com base neste achado e na já conhecida associação entre câncer hepático e DDT em camundongos, os autores afirmam que novos estudos devam ser feitos sobre o assunto, a fim de confirmar ou rejeitar a hipótese de associação.

DDT é também um potente indutor das enzimas hepáticas do citocromo P 450, que promovem a ativação de outras substâncias carcinogênicas, como a Aflatoxina B1 e a ciclofosfamida. A presença de DDT potencializa, portanto, os efeitos destes carcinógenos20.

A eliminação se dá pela urina, cabendo destacar também a importante via de eliminação pelo leite materno18, colocando em exposição elevada bebês lactentes. Vannuchi23 observou em Londrina, em 1984, uma contaminação de leite materno de 0,142 mg/kg de p,p'- DDT + p,p'- DDE, indicando que os bebês estavam ingerindo uma concentração maior que o estipulado posteriormente pelo Codex Alimentarius24, para leite de vaca (0,05 mg/kg [ppm]). O que indica que a situação destas crianças era crítica.

Beretta e Dick25, em um levantamento realizado em mulheres lactantes da zona urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, entre 1987 e 1988, encontraram valores médios de 2,98 ppm (µg/g de gordura do leite), de åDDT (DDT + DDE + DDD) variando entre 0,32 e 12,4 ppm. Das amostras analisadas, 73% excediam o limite de 1,25 ppm. E dentre os constituintes de åDDT, p,p'- DDE chegava à proporção de 95%, com uma concentração média de 2,53 ppm. Segundo as autoras, a lei federal promulgada em 198511 não estava sendo obedecida.

Efeito hormonal

O metabólito DDD foi, além de inseticida, utilizado como droga no controle da produção de corticóides pela glândula adrenal3.

Acreditava-se que o DDT e seus outros metabólitos não possuíam efeitos endócrinos, mas no final dos anos 80 os estudos de Bryan et al.26 sugeriram que o DDT era um mimetizador de estrógenos, isto é, possuía propriedades farmacológicas semelhantes, e então começou-se a verificar o efeito hormonal da exposição ao DDT e seus derivados.

Estes compostos realmente podem atuar semelhantemente a hormônios como o estrogênio, ao ligarem-se a receptores específicos e induzirem efeitos estrogênicos. Os hidrocarbonetos clorados, especialmente o o,p'- DDT exercem estes efeitos em répteis, aves e mamíferos. A possibilidade que eles tenham um efeito complexo, ao interagir com diferentes receptores de hormônios esteróides, em diferentes níveis, com conseqüências bioquímicas e fisiológicas ainda desconhecidas, precisa ser verificada27.

Em mamíferos, um dos efeitos estrogênicos induzidos pelo o,p'- DDT é o aumento do peso uterino em fêmeas. Nos machos, também bloqueia os receptores andrógenos. Já o metabólito p,p'- DDE possui pouca capacidade de se ligar ao receptor estrógeno, mas inibe a ligação entre o receptor andrógeno e a testosterona. Seus efeitos em experimentos com ratos de laboratório causaram manutenção de mamilos torácicos, atraso na separação do prepúcio no pênis e diminuição da vesícula seminal e próstata28.

Hayes et al.29, em estudo com o anfíbio africano Kassina senegalensis, chegaram a resultados sugestivos de que o DDT mimetiza corticosterona ou atua como agente estressante, causando um aumento da corticosterona endógena.

Beard et al.30 examinaram a relação entre os níveis plasmáticos de DDE e densidade mineral óssea em 68 mulheres, sedentárias, que declararam ter aporte nutricional adequado de cálcio, e encontraram resultados sugestivos de que exposições a DDT podem estar associadas à redução da densidade mineral óssea.

Romieu et al.31 analisaram a relação entre histórico de lactação, níveis plasmáticos de DDT e DDE e risco de câncer de mama, em um estudo conduzido entre mulheres residentes da Cidade do México, entre 1990 e 1995. A quantidade de DDT no soro não foi associado a risco de câncer, mas a presença de níveis altos de DDE, principalmente entre mulheres pós-menopausa, pode aumentar os riscos de câncer de mama.

CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL

Resíduos de pesticidas, especialmente organoclorados (DDT e metabólitos, BHC, aldrin, heptacloro e outros), estão presentes nas áreas mais remotas da Terra. Podem ser transportados por grandes distâncias através do mundo, retidos no organismo de animais migrantes marinhos32,33, por correntes de ar e oceânicas12. Já foram detectados nos Andes chilenos, em altitudes elevadas34.

Pesquisadores especulam que os poluentes se movem pela atmosfera, a partir de suas fontes em locais quentes do globo, e se condensam ao atingirem regiões mais frias, precipitando-se sobre solos, vegetações e cursos de água, processo este conhecido por destilação global35, 36. Isto pode ser a causa das altas concentrações de DDT e outros organoclorados encontradas nas regiões polares, após serem transportados por longas distâncias13.

Os padrões de distribuição do DDT e outras substâncias classificadas como poluentes orgânicas persistentes (POPs) ou contaminantes lipofílicos persistentes, sugerem que estas substâncias são transportadas através da atmosfera por longas distâncias. Uma comparação sistemática entre os hemisférios norte e sul indica que aquele encontra-se mais poluído. E o processo de equilíbrio entre ambos é relativamente lento. No entanto, os níveis de DDT, assim como o dos HCBs e PCBs (este último grupo não tem origem como pesticida, mas seus componentes possuem o mesmo comportamento ambiental, na condição de persistência e capacidade de se acumular em organismos vivos), encontram-se mais altos próximos às fontes devido à sua menor volatitlidade em comparação com os demais organoclorados13.

Os pesticidas aplicados em lavouras, terrenos ou em processos de reflorestamento ligam-se aos sedimentos do solo e sofrem ação de lixiviação e contaminação de águas, volatilização e contaminação do ar ou são absorvidos por microorganismos, vegetais ou animais37.

A contaminação pode alcançar águas subterrâneas38 e águas tratadas para consumo humano39, embora nesses estudos estivesse em níveis considerados seguros.

Em geral, os lençóis freáticos apresentam riscos moderados de contaminação, porém as cargas contaminantes variam, dependendo de condições locais (temperatura, acidez, salinidade, etc)15. Avaliou-se a carga contaminante, resultante de atividades agropecuárias no estado de São Paulo, e concluiu-se que os maiores riscos estão associados a locais onde há uso intensivo de herbicidas, principalmente em áreas de cultivo de cana-de-açúcar37.

Ao pesquisar a presença de DDT em solos e paredes de uma propriedade em Jacarepaguá, RJ, entre abril de 1997 e março de 1999, Vieira et al.40 verificou que os solos ainda apresentavam contaminação com DDT. A última aplicação pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) fora em 1990, para controle de leishmaniose. Porém, os valores relativos aos solos, de 1999, reduziram-se em relação aos valores encontrados em 1997, tendo diminuído de 351 µg/kg (ppb) em 1997 (åDDT) para 112 µg/kg (åDDT) em 1999.

CONTAMINAÇÃO DA BIOTA

As propriedades físico-químicas e biológicas do DDT e seus metabólitos, e demais organoclorados, fazem com que estes compostos sejam rapidamente absorvidos pelos organismos. As taxas de acumulação variam entre as espécies, e de acordo com a concentração, as condições ambientais e o tempo de exposição.

Os organismos acumulam estes compostos a partir do meio circundante ou pelos alimentos. No meio aquático, a absorção a partir do meio é mais rápida, enquanto que para os animais terrestres, a alimentação, seja carnívora, herbívora ou detritívora, é a via principal15.

Diferentes organismos metabolizam o DDT por diferentes vias. Dos principais metabólitos, DDE é o mais persistente, embora nem todos os organismos o produzam a partir do DDT15.

Denomina-se bioconcentração a absorção do composto diretamente do meio abiótico, resultando em uma concentração do composto no organismo maior que no meio abiótico que o cerca41. A proporção entre a concentração do composto no organismo e a concentração externa consiste no fator de bioconcentração. Os fatores de bioconcentração para peixes são geralmente maiores que os de seres vivos invertebrados, em relação aos organoclorados15. Muitos destes constituem suas presas.

Bioacumulação é a absorção do composto pelo organismo do meio abiótico ou biótico, podendo ou não a concentração exceder a da fonte41. A maioria do DDT presente nos peixes é absorvida a partir do corpo dos organismos que eles consomem. A maioria do DDT e metabólitos são retidos (bioacumulados) nos tecidos ricos em lipídios42,43.

A posição do organismo na cadeia biológica tem importante influência sobre se a substância apresenta elevada absorção e baixa eliminação. A isto chama-se biomagnificação, onde a concentração do composto aumenta ao longo da cadeia alimentar. Ocorre biomagnificação quando as concentrações de um poluente nos tecidos de um organismo excedem as concentrações do nível trófico adjacente inferior em mais de 100%. É bem conhecida, por exemplo, a biomagnificação de metilmercúrio em ecossistemas aquáticos44.

Em geral, seres vivos situados nos níveis tróficos mais altos tendem a conter mais organoclorados no organismo15, mas isso não é uma regra, podendo ser grandemente influenciada pelos hábitos alimentares, como por exemplo, em peixes detritívoros ou iliófagos, como o curimba (Prochilodus lineatus) que se alimentam de matéria orgânica em decomposição depositada no fundo42.

A biomagnificação do DDT foi demonstrada no Zimbabwe por Berg et al.45, em uma área endêmica da doença do sono, transmitida pelas moscas tsé-tsé, e malária, transmitida por mosquitos, onde estes vetores eram combatidos com o uso do DDT. As concentrações de åDDT encontravam-se elevadas nos peixes carnívoros da represa do Lago Kariba (até 0,08 mg/kg, ou ppm) e na aves (0,09 ppm). Embora estes níveis estivessem abaixo da concentração considerada perigosa para seres humanos, os autores sugeriram que podem ocorrer diversos efeitos no meio ambiente, como diminuição da população das aves e de peixes predadores, causando um desequilíbrio no ecossistema.

Ruus et al.46, em estudo sobre biomagnificação de cinco grupos distintos de organoclorados (PCBs, åDDT, clordanos, HCHs e HCB), em uma cadeia alimentar de um fiorde no norte norueguês, que envolvia os peixes Ammodytes marinus e Gadus morhua (bacalhau), e as focas Phoca vitulina e Halichoerus grypus, verificaram que o maior fator de biomagnificação encontrado foi o do åDDT (36,9), da Phoca vitulina para o Ammodytes marinus. As concentrações dos poluentes geralmente aumentaram de acordo com o nível trófico. Os padrões de composição dos organoclorados também diferiam entre as espécies; dentre os compostos de åDDT, as proporções de p,p'- DDE aumentaram de acordo com o maior nível trófico, enquanto que os de DDD decresceram. Segundo os autores, os dados sugeriram que os mecanismos de bioacumulação nos níveis tróficos mais baixos dependem principalmente de fatores físico-químicos, como a solubilidade dos poluentes, enquanto que nos superiores, são afetados por fatores bioquímicos, como o metabolismo corporal.

CONTAMINAÇÃO DE ECOSSISTEMAS AQUÁTICOS, MARINHOS E DE ÁGUA DOCE

Análise de amostras de água, partículas e suspensão e sedimentos de fundo, coletadas na Baía de Daya, China47, indicou contaminação por organoclorados. Os perfis de distribuição destes poluentes sugerem que há várias fontes contribuindo para a contaminação da baía, incluindo lixiviação de solos, descarga de águas contaminadas por lixo e esgoto e detritos de indústria naval. A faixa de DDT foi de 26,8 a 975,9 ng/L na água e de 0,14 a 20,27 ng/g (peso seco) nos sedimentos. E a proporção DDT/DDE + DDD indica fontes recentes, o que aponta para a necessidade se tomar medidas urgentes para deter o uso de pesticidas como DDT e lindano.

Também na China, foram analisadas amostras de sedimentos de três estuários da costa sudeste, para a presença de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, PCB e pesticidas organoclorados48. As altas concentrações de åDDT (2,5-24,7 ng/g) encontradas devem-se ao uso indiscriminado de DDT, o que se sabe ter ocorridos nos anos 60 e 70, contaminando os estuários consideravelmente, a partir de rios e lixiviação de solos. Atualmente, as altas proporções DDT/DDD e DDT/DDE indicam lenta degradação, adição recente de DDT ou fatores ambientais excepcionais. A predominância de DDD sobre DDE em dois dos estuários implica em degradação em condições anaeróbicas, devido à baixa taxa de circulação de água para o mar aberto. No estuário onde havia mais intercâmbio com a água do mar, o DDE predominava sobre o DDD. As concentrações dos outros inseticidas e PCBs estavam baixas.

Em um monitoramento de ecossistema marinho de águas profundas, determinou-se a presença de organoclorados em peixes e outros organismos da Baía de Suruga, Japão, e comparou-os com espécimes coletadas de águas rasas, na mesma baía. Congêneres de PCB foram os predominantes, seguidos de congêneres de DDT. Não houve diferença significativa em relação às concentrações presentes nos organismos de águas rasas, exceto para HCH, onde foram maiores. Também não foi verificada correlação com a cadeia alimentar, sendo as concentrações atribuíveis a uma partição de equilíbrio com a fração de lipídios corporais. Em todos os organismos, o composto de åDDT predominante foi o DDE, exceto em uma espécie de lagosta. Por último, os autores declaram que os níveis encontrados foram menores que os verificados por outros autores, em outros oceanos e mares do mundo32.

Nas regiões tropicais, radiação solar e altas temperaturas podem influenciar favoravelmente na remoção dos organoclorados do ambiente, ao gerar volatilização e degradação. Foi o que sugeriu o estudo empreendido por Kumblad et al.49 no lago Songkhla, Tailândia, ao determinar as concentrações de åDDT em quatro espécies de peixes. A alta produtividade biológica também contribuiu para as baixas concentrações encontradas, por resultar em um efeito diluente, ao distribuir pela grande quantidade de matéria orgânica presente. A magnitude de åDDT nos peixes foi similar às concentrações encontradas em estudos anteriores, citados no texto, em outras partes da Tailândia, e inferior ao que se verificara anteriormente no Mar Báltico, localizado no norte da Europa50.

O trabalho de Kumblad et al.49 fornece dados para um melhor entendimento do comportamento do DDT em ecossistemas aquáticos tropicais. As baixas concentrações de åDDT encontradas nos peixes do lago acima devem-se à diluição biótica e processos de degradação. Isto demonstra a necessidade de novos estudos sobre o comportamento do DDT e outros organoclorados nos trópicos, a fim de se compreender melhor sua distribuição global.

Trabalho similar já havia sido feito em 199045, em peixes da represa do Lago Kariba, fronteira de Zimbabwe com Zâmbia. Os níveis encontrados eram similares aos vistos em peixes da Suécia e outros locais de clima temperado, onde o DDT fora proibido há mais tempo. Os autores postularam que isso era devido a degradações biológica e química, radiação ultra-violeta e temperatura.

Torres51 pesquisou a presença de DDT e metabólitos, bem como outros pesticidas organoclorados, bifenilas policloradas (PCBs) e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, nos sedimentos dos rios brasileiros Guandú e Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, e Rio Rato, afluente do Rio Tapajós, estado do Pará. Os dois primeiros situam-se em locais de poluição de origem industrial ou zonas agrícolas, enquanto que o Rio Rato situa-se em local endêmico para malária e febre amarela, que são combatidas com o uso de inseticidas. A presença de 0,2 a 0,8 ppb de DDT em sedimentos de fundo pode estar relacionada ao uso agrícola nos rios Guandú e Paraíba do Sul. No caso do Rio Rato, onde o DDT fora aspergido dentro de casas, encontrou-se até 68 ppb nos sedimentos. No solo, os níveis ultrapassavam 1 ppm.

Nas regiões polares, a degradação dos organoclorados da biosfera é ainda mais baixa que nos trópicos, o que faz com que sua remoção seja ainda menor, e a bioacumulação e a biomagnificação continuam ocorrendo. Strachan et al.52 participaram da expedição russo-americana aos mares de Bering e Chukchi, organizada pelo Instituto Russo de Clima e Ecologia Global e pelo US Fish and Wildlife Service, em agosto-setembro de 1993. As coletas de amostras de águas foram realizadas em 21 pontos distintos e pesquisadas quanto à presença de 19 pesticidas organoclorados, 11 clorobenzenos e 113 congêneres de PCB.

A maioria dos organoclorados foi encontrada em maior concentração na coluna d'água que nos sedimentos em suspensão, sendo a-HCH e g-HCH os encontrados em maior quantidade. Todas as amostras tiveram p,p'-DDT como principal resíduo de åDDT. Isto indica uso recente, embora não necessariamente na região estudada. Os níveis decresciam no sentido sul-norte.

Uma pesquisa foi realizada no Canadá, em amostras de água coletadas mensalmente no Rio São Lourenço e quatro de seus estuários, de agosto de 1990 a novembro de 199153. As análises de determinação de åDDT, indicaram que as maiores concentrações ocorreram no mês de abril, durante o degelo de primavera (média de 3,02 ng/L), e decresceram logo em seguida. Segundo os autores, as duas fontes mais prováveis, para o Rio São Lourenço, são, a absorção do åDDT atmosférico, carreado pela neve, e a água contaminada proveniente dos Grandes Lagos. Nos tributários, o aumento da concentração em abril é atribuída ao derretimento da neve e à lixiviação dos solos contaminados. Também foi verificado, nas águas dos tributários, que as razões DDT/DDE + DDD diminuem no período de abril a setembro, indicando um ciclo anual tempo/temperatura dependente sobre as concentrações ambientais. Esta tendência não ocorreu no Rio São Lourenço, sendo atribuído a um uso então recente de Dicofol, inseticida que contém resíduos de DDT como impureza, mantendo, com isso, as razões DDT/DDE + DDD constantes.

A queda de neve carreia contaminantes orgânicos da atmosfera e os concentra rente ao solo, ao formar as calotas de neve. Durante o degelo, os contaminantes podem alcançar os ambientes aquático e terrestre, ou se volatilizarem e retornarem à atmosfera. Wania54 apresentou um esquema para descrever este processo, com cálculos de natureza físico-química, com DDT e outros organoclorados. Concluiu que o DDT, diferente dos demais, tende a ser retido no solo pela matéria orgânica, até ser carreado por ação mecânica de lixiviação.

Em um estudo sobre interação entre eutrofização e contaminantes, Gunnarsson et al.55 citam que contaminantes bioacumulativos, como organoclorados se diluem onde há uma grande biomassa, ou grande quantidade de matéria orgânica presente, o que ocorre nos ambientes aquáticos eutrofizados.

Mas, segundo Bignert et al.50, o decréscimo das concentrações de organoclorados em ecossistemas de águas doce e marinha da Suécia, constatado num monitoramento de 28 anos (1967-1995), o principal fator para a redução dos níveis deveu-se, provavelmente, às medidas governamentais que foram tomadas para reduzir a poluição. Os decréscimos nas concentrações ocorreram similarmente em todos os ambientes, mesmo nos lagos mais remotos, não eutrofizados, e situados longe de fontes poluentes. Além disso, houve diferenças marcantes no tempo de depuração dos outros organoclorados, como HCH e PCB. Os autores ainda apontam um súbito aumento, seguido de uma súbita redução, da concentração no período 1983-1986, após uma campanha de controle de insetos ter sido realizada na antiga Alemanha Oriental, por meio de DDT.

As variações nas concentrações de organoclorados em peixes de lagos de regiões árticas, que são contaminadas somente por transporte atmosférico por longas distâncias até serem lá depositados, podem ser devidas a concentrações variáveis, presentes na precipitação, ar, água e sedimentos. Estes fatores, por sua vez, variam com a localização geográfica e as características da água do lago ou cursos de água que o alimentam. Em um estudo realizado em um lago remoto, não eutrofizado, no norte canadense56, foram determinados os níveis de organoclorados presentes na água, sedimentos e biota, para examinar a participação da atmosfera na deposição de organoclorados e sua transferência de compartimentos abióticos para bióticos por bioacumulação. Os resultados sugerem que a absorção dos organoclorados presentes na atmosfera é uma rota muito importante, bem como a precipitação. Avaliações das trocas água - ar sugeriram que as águas do lago estavam próximas do equilíbrio com a atmosfera, para p,p'- DDE, a-HCH e trans-nonaclor. Em relação à cadeia alimentar, houve correlação com o nível trófico de cada um, bem como com a quantidade lipídica de cada ser vivo.

DDT e organoclorados em peixes

A biota aquática é um importante reservatório de DDT, metabólitos e outros organoclorados no ambiente, porque está bem documentado o processo de biomagnificação através da cadeia alimentar, apresentando as maiores concentrações nos organismos de nível trófico mais elevado, como os peixes carnívoros. Assim, além dos efeitos tóxicos dos pesticidas organoclorados para a exposição humana, a possibilidade das espécies de níveis tróficos elevados serem afetados pode acarretar desequilíbrio na estrutura das comunidades15. Ainda há os peixes que não estão em níveis tróficos superiores, mas que poderão atingir altos níveis de contaminação, ao absorverem nutrientes que possuirem grande carga de poluentes, por estes se associarem aos sedimentos de fundo42,17.

Bressa et al.17 estudaram os níveis de compostos organoclorados e åDDT em enguias (Anguilla anguilla, L.) oriundos do delta do Rio Pó, Itália. Esta espécie possui um considerável conteúdo de tecido adiposo, o que predispõe ao acúmulo destes contaminantes, além de ter como hábito alimentar, a ingestão de matéria orgânica em decomposição que está em contato com os sedimentos do fundo (detritívora). As capturas foram feitas em março (primavera) e outubro (outono). Os principais compostos identificados foram PCBs, HCB, p,p'- DDT e seus metabólitos p,p'- DDE e p,p'- DDD. As concentrações foram maiores nos peixes capturados na primavera, e se correlacionaram com a concentração de gordura presente.

Ainda segundo Bressa et al.17, o metabólito de DDT mais abundante foi o p,p'-DDE, que chegou a uma concentração máxima de 36,45 µg/kg (ppb) de peso seco, com média de 29,65 ± 6,80 ppb. As concentrações de p,p'- DDT e p,p'- DDD foram, respectivamente, 4,48 ± 0,45 e 21,42 ± 5,66, nas amostras coletadas na primavera. Os autores concluíram que não havia risco para a saúde pública, pois os níveis de organoclorados detectados estavam em níveis abaixo de serem considerados perigosos, que é de 2000 ng/g (2 ppm), segundo a U.S. Food and Drug Administration (USFDA) (apud Bressa et al.)17, mas poderia ser perigoso para os animais predadores, como aves, o que configuraria um risco ambiental.

A fim de avaliar a exposição das populações ribeirinhas, Viganò et al.57 pesquisaram níveis de PCBs, DDTs (p,p'- DDT + p,p'- DDE), e equivalentes de tetraclorodibenzeno-para-dioxinas (TCDD) em sedimentos do fundo e em três espécies de peixes ciprinídeos dos rio Pó, Itália, tendo como referência para os dois pontos de coleta a confluência de outro rio, Rio Lambro. As duas espécies carnívoras revelaram-se as mais contaminadas, e uma delas (Leuciscus cephalus) mostrou nível de contaminação superior, em mais de 2 vezes, em relação ao ponto de coleta situado abaixo da confluência do rio Lambro. Esta área do rio está exposta a uma complexa mistura de poluentes químicos industriais e de atividades agrícolas, situadas nas margens de ambos os rios, apresentando uma contaminação que influenciou os níveis de poluição dos pontos de coleta. A concentração média de DDT encontrada nas 3 espécies (Chondrostoma söeta, Leuciscus cephalus e Barbus plebejus) foi, respectivamente, 871, 856 e 2.204 ppb (ou ng por grama de peso de tecido adiposo), acima da confluência do rio Lambro, e 1.137, 2.296 e 4.029 ppb abaixo da confluência. Verificou-se a influência, tanto da posição na cadeia alimentar, quanto da quantidade de poluentes, na concentração destas substâncias retidas nos organismos. Neste caso, os níveis de organoclorados detectados estavam em níveis superiores aos considerados perigosos, que é de 2000 ng/g (2 ppm) (U.S. Food and Drug Administration [USFDA] apud Bressa et al.17).

Na Argentina, Menone et al.2 analisaram as concentrações de PCBs e diversos pesticidas organoclorados, incluindo DDT e metabólitos, no organismo de peixes de água doce da espécie Odontesthes bonariensis, na lagoa de Mar Chiquita. Os compostos foram detectados em concentrações na ordem de ng/g (ppb), com níveis em tecidos na ordem decrescente: tecido adiposo > fígado > gônadas > gordura mesentérica > músculos, refletindo a diferença no conteúdo de gordura. Os pesticidas predominantes foram DDT e metabólitos, lindano e ciclodienos, refletindo o uso passado e presente destes pesticidas na região. A proporção de pesticidas organoclorados para PCBs foi maior que 1, sendo consistente com a contaminação da região por pesticidas. No entanto, as concentrações dos compostos estavam abaixo dos limites máximos toleráveis para consumo humano.

Lara et al.58 detectaram isômeros de BHC e DDT e metabólitos, principalmente p,p'- DDE, em peixes do litoral de Santos, SP. Em uma amostragem de 50 peixes, os isômeros de BHC foram detectados em 84 % das amostras, variando de 10 a 940 µg/kg (ppb) de BHC total; e DDT e metabólitos (å DDT) foram detectados no organismo de três tainhas e uma salteira (8% das amostras), variando de 20 a 41 µg/kg (ppb).

Matsushita e Souza42 encontraram 8 tipos diferentes de organoclorados em três espécies de peixes no Rio Paraná, situado na divisa de estados PR/MS. Entre eles estavam p,p'- DDT e p,p'- DDE. Os autores mencionam a importância da quantidade de tecido adiposo, a posição na cadeia trófica e o hábito alimentar como determinantes da quantidade no organismo. Os autores citam trabalhos anteriores que haviam detectado os pesticidas nos vegetais que serviam de alimento para uma das espécies, e terminam o trabalho declarando que a contaminação dos peixes por estes resíduos organoclorados é preocupante, porque fazem parte da alimentação da população ribeirinha e são comercializados nos estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

MONITORAMENTO DE DDT E OUTROS PESTICIDAS EM ÁGUAS SUPERFICIAIS

O monitoramento de DDT e outros pesticidas em águas superficiais é pobre em várias partes do mundo, especialmente em países em desenvolvimento. Embora pesticidas estejam incluídos em vários programas governamentais, há falta de verba, e dificuldades de aplicá-los no exato momento do ano em que os pesticidas são utilizados, na agricultura ou em programas de saúde, por exemplo. Além disso, países subdesenvolvidos têm dificuldade de realizar as análises, devido a problemas de falta de profissionais, reagentes e técnicas adequadas. Novas técnicas utilizando procedimentos de imunoensaios, para detectar presença de pesticidas, poderiam reduzir os custos e aumentar a eficiência59.

Existem problemas que podem influenciar nas análises de água, como a presença de sólidos em suspensão. Suas concentrações na água de rios podem variar de 10 a 10000 mg/L, e serem ainda maiores em certas ocasiões, como lixiviação em época de chuvas fortes. Segundo Ongley et al.60, 67 % do DDT é transportado em associação com a matéria em suspensão, quando a concentração dos sólidos em suspensão está em torno de 100 mg/L, e aumenta para 93 % quando sobe para 1000 mg/L. E foi detectada em 100 % quando a concentração está em 10000 mg/L.

Segundo a FAO/ASFA59, problemas analíticos como quantidades abaixo do limite de detecção, controle de qualidade deficiente e análises de recuperação que podem variar de 50 a 150 %, para compostos orgânicos, significa que os dados de monitoramento podem ser indicadores deficientes de poluição por pesticidas, quando estes estão adsorvidos aos sólidos em suspensão. Considera-se que o valor denominado "Não detectável" pode ser devido a procedimentos inadequados de amostragem e/ou análise. Considera-se que valores associados a sedimentos sejam, em geral, muito maiores que os registrados, e que valores ditos "Não detectáveis" podem não corresponder à realidade59 .

Claramente, isto causa dificuldades na avaliação de pesticidas em várias partes do mundo. Algumas agências de controle de água usam vários tipos de amostras (água + sedimento + biota), a fim de obter resultados mais acurados59.

Não obstante técnicas analíticas adequadas de água e/ou sedimentos, a presença de um pesticida persistente como o DDT não é fácil de interpretar. Sua presença pode tanto indicar que foi despejado recentemente no local, ou transportado por longas distâncias pela atmosfera, ou é um resíduo remanescente de seu uso em uma época passada. Por exemplo, DDT é encontrado frequentemente no território dos EUA, apesar de seu uso ter sido abolido há vários anos.

CONTAMINAÇÃO DOS ALIMENTOS

O DDT já era contra-indicado no tratamento de ectoparasitos do gado leiteiro, antes de ser proibido, porque é eliminado pelo leite, além de armazenar-se no tecido adiposo. A ocorrência de níveis tóxicos na carne e no leite concorreu para a proibição de sua fabricação e comercialização4.

Já foi registrada contaminação por DDT e outros organoclorados na América Latina em carne bovina, carne de aves, leite, frutas, hortaliças, legumes, cacau, arroz e até mesmo em óleos, de milho, soja, girassol e oliva. No caso dos produtos de origem vegetal, este pode ser contaminado tanto por absorção foliar após aspersão, quanto por translocação através do solo3.

Estimou-se que cerca de 90 % do DDT e metabólitos retidos no organismo dos seres humanos é proveniente da alimentação. Em 1965, quando ainda não era proibido, a absorção pelos cidadãos americanos era de aproximadamente 0,04 mg/ dia dos alimentos, e de 4,6 x 10-5 mg/dia da água, de menos de 6,0 x 10-5 do ar urbano e de menos de 5,0 x 10-4 do ar em regiões agrícolas, com uso constante do DDT61. Outros investigadores62, 63 chegaram à mesma conclusão: a de que a ingestão de alimentos é a principal fonte de exposição ao DDT e outros compostos organoclorados para a maioria da população.

Analisando 44 amostras de leite comercializado na cidade de São Paulo, coletadas de fevereiro a dezembro de 1979, para determinação de pesticidas organoclorados, Lara et al.64 encontraram p,p'- DDE em 95,4 % das amostras, sendo que em apenas 15,9 % das amostras havia p,p'- DDT e o,p'- DDT. A média foi de 0,03 (mg/kg de gordura do leite) ppm, com um máximo de 0,21 ppm.

Os mesmos autores fizeram trabalho semelhante entre 1980 e 1981, desta vez com três marcas comerciais de leite tipo B, em 36 amostras em 1980 e 12 amostras em 1981. Esses valores variaram de 0 a 0,22 mg/kg em 1980 e de 0 a 0,10 mg/kg em 1981. Desta vez revelou-se um novo contaminante ambiental: o dieldrin, que é utilizado como inseticida, e é também um metabólito do aldrin. Este variou de 0 a 0,04 mg/kg (gordura de leite) em ambos os anos65.

Baseados em estudos toxicológicos e epidemiológicos, Mariën e Laflamme66 recomendam uma concentração máxima de ingestão diária tolerável de DDT, para proteção à saúde de populações especialmente sensíveis (ex: neonatos e lactentes), de 0,005 mg/kg/dia. Neste mesmo trabalho, os autores concluíram, que as mães que se alimentavam regularmente de duas espécies de peixes do rio Yakima, estado de Washington - EUA, tinham concentrações de DDT no leite suficientemente altas (2,4 mg/kg) para exporem seus filhos a dosagens de DDT acima da ingestão diária aceitável. A ingestão pelos filhos lactentes foi calculada em 0,02 mg/kg dia. As concentrações médias nos peixes eram de 0,84 mg/kg e 1,63 mg/kg.

De acordo com Vieira40, a concentração média de åDDT encontrado em ovos de galinha apresentou-se em torno de 1,98 mg/kg (ppm) de lipídios extraíveis, na gema, sendo 82% de p,p'-DDE e 16% de p,p'-DDT.

Segundo a Comissão do Codex Alimentarius21, os limites máximos permitidos (tolerados) são 0,05 mg/kg para o leite, 0,1 mg/kg para grãos, 5,0 mg/kg para carnes e 0,5 mg/kg para ovos. A USFDA recomenda um máximo de 2,0 mg/kg para peixes (apud Bressa et al.17).

Kalantzi et al.67 usaram a manteiga como indicador para refletir as escalas global e regional de PCBs e outros organoclorados (entre eles o DDT) no ar. Isto foi baseado no fato de que estes poluentes se concentram na gordura do leite bovino, onde as concentrações estão relacionadas pela ingestão de pastos ou silagens, que por sua vez sofrem a ação da deposição atmosférica. As concentrações de åDDT e HCH nas amostras variaram em várias ordens de magnitude, com os maiores níveis sendo encontrados em áreas de uso comum, como Índia e zonas específicas das Américas do Sul e Central. Os autores consideraram a manteiga como um indicador eficaz, mas ainda faltam dados quanto a fatores climáticos e de manejo do gado, que influenciam o processo de transferência ar-pasto/silagem-gordura do leite.

DDT E CONTROLE DE MALÁRIA

Um dos mais importantes usos do DDT é o controle de mosquitos vetores da malária, cuja principal espécie transmissora, Anopheles darlingi, já foi encontrada do México até o norte da Argentina. No Brasil, antes das campanhas de erradicação, somente os estados de Paraíba, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estavam livres. Ocorre em locais com grandes volumes de água, como represas, lagos e grandes rios, límpidos e pobres de matéria orgânica ou sais7.

O principal recurso disponível para interromper a transmissão da malária consiste na aplicação de inseticidas de ação residual, com aplicação intradomiciliária. O êxito desta operação está no fato de agirem no local onde se dará a transmissão mosquito - ser humano. Recomendam-se concentrações que assegurem mortalidade de 65 a 85% dos insetos.

Os inseticidas usados são, na ordem de preferência, hidrocarbonetos clorados, organofosforados, carbamatos e piretróides sintéticos (Tabela 1).

Em pesquisa para controle global de malária, um grupo de estudo da Organização Mundial de Saúde promoveu debate sobre a proibição ou não de DDT, com base na possível associação entre DDT e câncer humano, bem como de DDT no leite materno. O comitê chegou às seguintes conclusões22:

1. que não há provas suficientes de efeitos nocivos à saúde humana pela exposição ao DDT, após aplicação em interiores domiciliares;

2. não haveria, portanto, justificativa de ordem toxicológica ou epidemiológica para modificar a política atual de aspersão de DDT em interiores de residências;

3. foram especificadas as condições a serem aplicadas em campanhas de saúde contra a malária;

4. ao planejar um programa de controle de malária em um país ou região, serão levados em conta os seguintes fatores:

- o custo de cada inseticida;

- a disponibilidade de outros métodos de luta antivetorial, onde se incluem os inseticidas alternativos, levando-se em conta os custos e riscos à saúde humana de cada um;

- o surgimento de insetos resistentes, em especial a resistência cruzada, que não é impossível e pode surgir quando se utilizam os inseticidas alternativos;

- a aceitação da população ante o emprego de novos, sobretudo em relação à saúde pública.

Tendo em conta a escassez de dados que indiquem os efeitos nocivos causados pela aplicação no interior das residências, devem ser feitas investigações epidemiológicas que comprovem os fatos, mediante procedimentos científicos rigorosos.

Também devem ser executados estudos adicionais para:

a) examinar as consequências à saúde dos lactentes que seriam causadas pela ingestão de DDT pelo leite materno;

b) investigar a fundo qualquer associação presumida entre o emprego de DDT, em metas de controle antipalúdicas, e o aumento da incidência de câncer.

Os anofelinos adquiriram resistência aos pesticidas, entre eles, os organoclorados. Isso explicaria porque os casos de malária voltaram a crescer durante os anos 707.

O controle sistemático de combate aos vetores da doença iniciou-se na Amazônia, em 1945, nas localidades de Breves e Santa Mônica, Pará. Em setembro de 1947 já havia sido utilizado em outras localidades do estado, no estado do Amazonas e em Guaporé (atual Rondônia) e Amapá, territórios federais na época68. Segundo Roberts5, o reaparecimento da malária na América do Sul deve-se ao fato de os países terem deixados de utilizar DDT nos programas de controle. Os dois únicos países onde a malária não reapareceu foram Venezuela e Equador, devido ao fato de o DDT não ter sido proibido.

Alguns malariologistas argumentam que a aplicação dentro de residências, que seria prejudicial à saúde humana, não é convincente. E que em vários países, o uso de inseticidas organoclorados é o único meio economicamente viável de controle, assim como para a leishmaniose. Seus escassos orçamentos para as campanhas de saúde não possibilitariam substituir satisfatoriamente os inseticidas organoclorados, tendo em vista os preços mais elevados de possíveis alternativas69.

Os custos mais elevados de controle por meio de outros pesticidas superariam os eventuais riscos à saúde, se houver. Os autores argumentam que são inconsistentes os indícios de malefícios à saúde causados por DDT e organoclorados, bem como que a aplicação dentro das casas não causa riscos ao meio ambiente69.

Durante a Conferência das Nações Unidas, realizada entre 4 e 10 de dezembro de 2000, ficou declarado que oito pesticidas considerados nocivos ao ambiente e à saúde serão proscritos pelos países signatários, a saber: hexaclorobenzeno, endrin, dodecacloro, toxafeno, clordano, heptaclor, aldrin e dieldrin. Mas propôs-se que o DDT ainda seja utilizado no controle de malária, pois países que o utilizam para este propósito, ainda necessitam de recursos e tempo para definir e implementar alternativas. O DDT será utilizado somente dentro do interior de residências, e não mais para a agricultura70.

AGRADECIMENTOS

Esse trabalho teve o apoio da CAPES (bolsa de doutorado: MSc. C. D'Amato) e do CNPq (PRONEX 0877). O laboratório cromatográfico foi construido durante a cooperação internacional C*11-CT93-0055 (Comunidade Européia). O Dr. J. Torres é `Selikoff Fellow' da Mount Sinai School of Medicine (Grant 1 D43 TW00640 - Fogarty International Center of the National Institutes of Health).

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Cad. Saúde Pública v.19 n.2 Rio de Janeiro mar./abr. 2003

ARTIGO ARTICLE

Serum DDT in malaria vector control sprayers in Mato Grosso State, Brazil

DDT em soro sangüíneo de agentes de saúde da Fundação Nacional de Saúde no Estado de Mato Grosso, Brasil

Eliana Freire Gaspar de Carvalho Dores; Leandro Carbo; Adley Bergson Gonçalves de Abreu


Departamento de Química, Instituto de Ciências Exatas e da Terra, Universidade Federal de Mato Grosso. Av. Fernando Corrêa s/n, Cuiabá, MT 78060-900, Brasil.

Correspondence


ABSTRACT

DDT was used intensively in vector control programs in Mato Grosso State until 1997. The present study aimed to determine DDT concentrations in blood samples from Brazilian National Health Foundation workers in Mato Grosso. Blood samples were analyzed from 41 sprayers, 20 drivers, and 14 unexposed workers, collected in June 1999 and October 2000 in two regions of the State (Sinop and Cáceres). Sprayers and drivers were occupationally exposed, and no significant differences were found in serum DDT levels between these two groups in either region. Likewise, no significant differences were found in p,p'DDE and total DDT levels between Cáceres and Sinop. However, p,p'DDT levels were higher in Sinop due to the intensive use of this insecticide in the region in recent years. The two regions together showed the following results: total DDT ranging from 7.50µg/L to 875.5µg/L (median = 135.5µg/L) for sprayers; from 34.5µg/L to 562.3µg/L (median = 147.7µg/L) for drivers; and from undetected to 94.8µg/L (median = 22.5µg/L) for unexposed workers.

Key words: Insecticides; DDT; Occupational Exposure; Occupational Health


RESUMO

O uso de DDT em campanhas de saúde pública foi intenso em Mato Grosso, tendo sido suspenso em 1997. Este estudo objetivou determinar os níveis de DDT em amostras de sangue de funcionários da Fundação Nacional de Saúde de Mato Grosso. Foram analisadas 41 amostras de soro sangüíneo de agentes de saúde, 20 de motoristas e 14 de trabalhadores não expostos coletadas em julho de 1999 e outubro de 2000 em duas regiões do Estado (Sinop e Cáceres). Os agentes de saúde e os motoristas estiveram ocupacionalmente expostos, não havendo diferença significativa entre os resultados destes dois grupos nas duas regiões. Não foram encontradas diferenças significativas nos teores de p,p'DDE e DDT total entre os resultados das duas regiões, entretanto, os níveis de p,p´DDT foram significativamente maiores no Distrito de Sinop devido ao fato do DDT ter sido mais intensamente usado neste distrito em anos mais recentes. Os níveis de DDT total variaram de 7,50µg/L a 875,5µg/L (mediana = 135,5µg/L) para os agentes de saúde; de 34,5µg/L a 562,3µg/L (mediana = 147,7µg/L) para os motoristas e de não detectado a 94,8µg/L (mediana = 22,5µg/L) para os trabalhadores não expostos.

Palavras-chave: Inseticidas; DDT; Exposição Ocupacional; Saúde Ocupacional


Introduction

Mato Grosso State in Central Western Brazil is an endemic area for malaria. According to the Mato Grosso State Office of the Brazilian National Health Foundation (FUNASA/MT), DDT was used for malaria vector control until 1997, when its use was banned by a court decision.

Malaria occupies a prominent place among the tropical endemic diseases. Brazil, Peru, Guyana, and 18 other malaria-endemic countries of the Americas presented a consistent pattern of low rates of malaria until the late 1970s, followed by a geometric increase in malaria incidence in subsequent years. According to Roberts et al. (2000), true growth in malaria incidence corresponds temporally to changes in global strategies for malaria control. Underlying the concordance of these events is a causal link between decreased spraying of dwellings with DDT and increased malaria. Separate analyses of data from 1993 to 1995 showed that countries that have recently discontinued their spraying programs are reporting major increases in malaria incidence. The history of the struggle against malaria in Brazil is over 50 years old, and the most frequently used strategy has been spraying of domiciles with DDT (Souza, 1998).

Although DDT brought undeniable benefits to public vector control campaigns, its use was banned due to its eco-toxicological risks as a consequence of its persistence in the environment, bioaccumulation in food chains, and slow elimination from living beings.

Workers involved with domiciliary DDT spraying as part of vector control campaigns are particularly vulnerable to contamination by this substance due to their high exposure. Souza (1998) conducted a survey on the use of insecticides by FUNASA/MT sprayers and called attention to their lack of training and preparation for handling such compounds. The author also reported that even when personal protective equipment was available, workers resisted using it, claiming that it was uncomfortable and interfered with their work. The same situation is common among agricultural workers in developing countries, where pesticides tend to be handled carelessly, and personal protective equipment is seldom used (Jeyaratnam, 1993).

Organochlorine pesticide residues have been detected in the blood serum of exposed and unexposed workers around the world. Several studies on the contamination of personnel working in vector control household spraying have been conducted in Brazil.

In the State of Minas Gerais, Franklin & Peixoto (1986) studied 106 sprayers from SUCAM (the Superintendency of Public Health Campaigns) who handled HCH (hexachlorocyclohexane, 30% gamma-isomer), widely utilized to control Chagas disease vectors, to determine the serum levels of this insecticide. A control group of unexposed individuals was also analyzed. Blood samples from 10 unexposed individuals were collected and analyzed. b-HCH was detected in all samples at levels varying from 0.08 to 0.68µg/dL, while a-HCH was detected in only three samples. Among the exposed workers, only b-HCH was detected in all samples, at concentrations from 0.19 to 13.44µg/dL. This can be explained by the fact that this is the most stable and persistent isomer. No correlation was found between time on the job as sprayers and HCH blood levels.

Carvalho & Berbet (1987) measured serum organochlorine insecticides (DDT and HCH) in occupationally exposed vector control workers in the State of Bahia. They reported high absorption levels, exceeding the limits established by occupational health legislation. This excessive absorption occurred partially due to the lack of use of personal protective equipment, workers' habits in the work environment, and lack of knowledge concerning proper handling measures and techniques for pesticide application. Mean serum concentration in a control group was 3.23 ± 2.72µg/L for total HCH and 8.55 ± 9.14µg/L for total DDT. In this group, o,p'DDT and p,p'DDD were not detected and p,p'DDT was found in only three samples, while p,p'DDE appeared in all samples, with a mean concentration of 8.32 ± 9.03µg/L. Among the three exposed groups that were studied (one group with recent but not past exposure to DDT, one with past but not recent exposure, and one with both past and recent exposure), the latter showed the highest mean serum concentration, with 732.50 ± 685.20µg/L. From the occupational health point of view, all exposed groups presented total serum DDT levels above the values considered normal in NR-7 (see below), that is, 30µg/L.

Act 6,514 (Dec. 22, 1977) of the Brazilian Ministry of Labor, in its Regulatory Provision NR-7, established threshold limit values (TLVs) for chemicals in biological samples from workers. TLVs are the maximum tolerable concentrations of endogenous substances not to be exceeded in the human body. For serum DDT, the TLV was set at 500µg/L. According to this same legislation, normal serum DDT concentration in individuals without occupational exposure to this chemical was 30µg/L. These guidelines were re-edited in 1994, when organochlorine pesticides were excluded.

Minelli & Ribeiro (1996a) determined serum insecticide residues in 26 sprayers who had handled HCH and DDT in malaria vector control campaigns in São José do Rio Preto, São Paulo State. The control group of unexposed workers consisted of 16 individuals. The substances o,p'DDT and g-HCH were detected in 62% and 92% of the samples, respectively. All blood samples were contaminated with a-HCH, b-HCH, p,p'DDT, and p,p'DDE at mean concentrations of 0.4, 31.8, 64.3, and 13.5µg/L, respectively. The levels of b-HCH, p,p'DDE, and p,p'DDT were considerably higher than those found in samples of unexposed workers, with mean concentrations of 3.3, 14.3, and 1.5µg/L, respectively

Recent studies of groups not occupationally exposed to organochlorine pesticides were conducted in Brazil by Koifman et al. (1998), Paumgartten et al. (1998), and Delgado et al. (2002). The first group performed a case study to investigate the occurrence of a cancer cluster among young indigenous adults in an Amazonian village. The authors evaluated the different environmental exposures possibly associated with this cancer cluster, i.e., exposure to ionizing radiation, organochlorine (DDT) and organophosphorus pesticides, and heavy metals. 89 blood samples were analyzed, and median serum p,p'DDT ranged from 26.3µg/L (men 30 years of age or older) to 58.1µg/L (children).

Serum organochlorine pesticide levels were determined in agricultural workers from Rio de Janeiro State by Paumgarten et al. (1998). p,p'DDE was detected in 16 of 26 samples, but p,p'DDE exceeded the limit of quantification of 1.4 µg/L in only three samples.

Delgado et al. (2002) analyzed organochlorine pesticides in blood samples from 33 volunteers who had been living in Greater Metropolitan Rio de Janeiro for at least 5 years. p,p'DDE was found in 17 of the 33 samples at levels varying from 1.4 to 4.8µg/L.

Organochlorines are known to be toxic to the central and peripheral nervous systems, causing hypersensitivity in nerves and muscles (WHO, 1979).

There is still controversy over the adverse effects of chronic exposure to DDT. However, it has been proven that DDT causes hepatic alterations in various rodent species and that these changes can progress to tumor formation in some species (WHO, 1979).

Although several studies have attempted to correlate DDT exposure and cancer in humans, none has obtained unequivocal confirmation of this correlation (Albert, 1981; Cantor & Booze, 1991; Falck et al., 1992, Olaya-Contreras et al., 1998, Romieu et al., 2000; Wassermann et al., 1979). Another more recent concern is the potential of DDT and its metabolites to interact with the endocrine system (McLachlan & Arnold, 1996). The effects of these substances on reproduction in birds and alligators have already been shown. Snedeker (2001) reviewed studies which attempted to correlate pesticides (DDT, DDE, and dieldrin) with breast cancer risk. According to the author, several early descriptive studies and a cohort study identified a positive association between breast cancer risk and adipose or blood levels of these pesticides. Most of the nested case-control and case-control studies conducted since 1996 failed to confirm these early observations, while two studies conducted in Colombia and Mexico found an increased risk of breast cancer in women with high DDE levels.

Malaria incidence was high in the northern region of Mato Grosso State, along the southern border of the Amazon Forest, where high amounts of DDT may have been used. The Brazilian National Health Foundation divides the State into four districts for administrative purposes (Figure 1). The District of Sinop, located in the North of Mato Grosso, and that of Cáceres, in the Southwest of the State, were selected for this study, aimed at obtaining data on contamination levels in National Health Foundation (FUNASA) personnel involved in household DDT spraying.

Methods

The District of Sinop, in the North of Mato Grosso, includes 30 municipalities (or counties). The main economic activities are lumbering, cattle-raising, and gold-mining. The FUNASA staff in Sinop consisted of 144 sprayers (also referred to as health agents), 15 drivers, and 15 office workers. In the District of Cáceres, in the Southwest of Mato Grosso, with 29 municipalities, there were 74 sprayers, 13 drivers, and 8 office workers at the time of the study.

Since there were no previous data on serum DDT levels in Mato Grosso, the sample size was calculated based on data from the study carried out by Minelli & Ribeiro (1996a) with sprayers in São José do Rio Preto, São Paulo. In addition to the sprayers, drivers were also considered to be exposed to DDT, since they were responsible for loading and unloading the insecticide in the vehicles, besides accompanying the house spraying. Office workers were classified as unexposed.

The samples collected and analyzed in June 1999 in Sinop consisted of 23 sprayers, 12 drivers, and 7 office workers, and those collected in October 2000 in Cáceres included 18 sprayers, 8 drivers, and 7 office workers. Blood sample donors were randomly chosen from the staff list furnished by FUNASA/MT, and participation in the study was voluntary. After explaining the study's objectives and procedures, the randomly chosen volunteers were asked to sign an informed consent form.

All participants were asked questions on their work history. 10mL blood samples were then taken from an arm vein using disposable needles and syringes and transferred to test tubes. After clotting, serum was separated by centrifugation, transferred to a Teflon stoppered sample vial and kept under ice for transportation to the laboratory of the Federal University of Mato Grosso, where the samples were immediately frozen.

DDT residues were analyzed using the method previously described by Minelli & Ribeiro (1996b), which consists of pesticide extraction from a serum-silica suspension with n-hexane-acetone (9:1), extract purification using alumina column chromatography, and analysis of the final extract using gas-liquid chromatography with electron capture detection (63Ni). All solvents were residue grade, and reference standards were 98-99% pure, purchased from Supelco. Standard solutions were prepared in isooctane. All samples were analyzed in duplicate, and the results were presented as a mean of the two results. Chromatographic parameters were as follows: carrier gas: high purity nitrogen; gas flow: 30mL/min; oven temperature: 200ºC; injector temperature: 235ºC; detector temperature: 300ºC; glass column (1,8m x 2mm i.d.) packed with 1.5% OV-17 + 1,95% QF-1 on 80-100 mesh Chromosorb WAW DMCS. Limits for residue quantification were determined as: p,p'DDT = 7.5 µg/L and p,p'DDE = 5 µg/L.

Results and discussion

Serum p,p'DDE, p,p'DDT, and total DDT concentrations as well as the age, work duration, and jobs of volunteers from the District of Sinop are shown in Table 1. p,p'DDE was detected in 98% of the samples, while p,p'DDT was found in 85.7% (36 samples). Dechlorination of p,p'DDT in the human body results in p,p'DDE, which is more persistent than the parent compound, and DDE expressed as a percentage of total DDT increases after DDT intake decreases (WHO, 1979). Sprayers and drivers had not been exposed to DDT since 1997, which explains the fact that p,p'DDE levels were much higher than those of p,p'DDT in almost all of the samples.

Study subject number 38 presented pesticide concentrations much higher than the other unexposed workers, because he also worked as a storekeeper, where he handled DDT. This result was thus excluded from the unexposed sub-sample for statistical calculations.

Table 2 shows the serum p,p'DDE, p,p'DDT, and total DDT concentrations, age, work duration, and jobs of blood sample donors from the District of Cáceres. Similar to the results in Sinop, p,p'DDE was detected in all samples, while p,p'DDT was found in only 16 samples (48%).

According to the Kolmogorov-Smirnoff normality test, these results are not statistically normal. The descriptive statistical data for p,p'DDE, p,p'DDT, and total DDT levels are presented in Table 3, for sprayers, drivers, and unexposed workers. The comparison of these concentrations for exposed individuals (sprayers and drivers) and unexposed workers in the District of Sinop using the Mann-Whitney non-parametric variance analysis showed that there is a significant difference (p <> 0.05). This indicates that despite their job differences, sprayers and drivers had been equally exposed. The same trend was observed in the District of Cáceres.

No correlations were found between serum pesticide levels and age or work duration in the study volunteers in either of the two districts.

Comparison of the results of p,p'DDE and total DDT between the two districts in exposed workers showed no significant difference (p > 0.05), but a highly significant difference (p = 0.001) was found in p,p'DDT levels. This is due to the fact that, according to FUNASA/MT, DDT was applied more intensively in the District of Sinop in more recent years. Figure 2 presents a boxplot of total DDT serum concentrations for the two districts and three working functions on which these comparisons are best observed.

In general, total DDT levels for the exposed group in the two districts were higher than those found in the most recent study conducted on sprayers in São José do Rio Preto, São Paulo State, Brazil (Minelli & Ribeiro, 1996a). However, the results of the present study were lower than those reported by Carvalho & Berbet (1987) in sprayers from Sucam (Superintendency of Public Health Campaigns) who also had early but not recent exposure (mean total DDT = 258.28µg/L).

From the samples analyzed in this study, four individuals in the District of Sinop and one individual in the District of Cáceres presented total serum DDT above 500µg/L. It is important to emphasize that the occupationally exposed individuals analyzed had used DDT up to 1997, when exposure to this substance was terminated. Consequently, it is likely that more individuals had high concentrations when still exposed to this insecticide.

Conclusions

Both sprayers and drivers were occupationally exposed to DDT as a consequence of their job activities. Total DDT levels for these two exposed groups did not differ statistically and were higher than those reported by Minelli & Ribeiro (1996b) in a recent study with sprayers, but were lower than those observed by Carvalho (1991) in another study with this same category of workers in Bahia State. Concentrations of the DDT metabolite p,p'DDE generally higher than those of p,p'DDT indicate non-recent exposure.

The occupationally exposed group, sprayers and drivers, presented DDT levels significantly higher than those of unexposed workers from the National Health Foundation (Mato Grosso State) in both districts. These high levels are probably due to the fact that exposed workers did not use personal protective equipment, as reported by Souza (1998). Median total serum DDT for the unexposed group was lower than the mean value for the unexposed population, 30µg/L, as stated in Act 6,514 (Dec. 22, 1977) of the Brazilian Ministry of Labor.

Acknowledgements

This study was supported by grants from the Brazilian National Research Council (CNPq) and the Mato Grosso State Research Foundation (FAPEMAT). We gratefully acknowledge the cooperation of the Mato Grosso State Office of the National Health Foundation and their workers, who participated voluntarily in this study.

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Correspondence to
Eliana Freire Gaspar de Carvalho Dores
eliana@cpd.ufmt.br

Leandro Carbo
carbo@cpd.ufmt.br

Adley Bergson Gonçalves de Abreu
adley@vsp.com.br

Submitted on April 4 2002
Final version resubmitted on August 28 2002
Approved on November 8 2002

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20 de março de 2009
Efeitos da sucessão florestal sobre a anurofauna (Amphibia: Anura) da Reserva Catuaba e seu entorno, Acre, Amazônia sul-ocidental

Effect of the forest succession on the anurans (Amphibia: Anura) of the Reserve Catuaba and its periphery, Acre, southwestern Amazonia

Revista Brasileira de Zoologia, v.25 n.1 Curitiba mar. 2008

Vanessa M. de SouzaI; Moisés B. de SouzaII; Elder F. MoratoII

IAvenida Assis Chateaubriand 1170, ap. 304, Edifício Azul, Setor Oeste, 74130-011 Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: phyllomedusavms@yahoo.com.br
IIDepartamento de Ciências da Natureza, Universidade Federal do Acre. Rodovia BR-364, km 04, Distrito Industrial, 69915-900 Rio Branco, Acre, Brasil. E-mail: moisebs@terra.com.br; elderfmorato@yahoo.com.br


RESUMO

O trabalho teve como objetivo verificar a abundância, riqueza e a composição da anurofauna em diferentes estágios sucessionais em uma floresta do Acre (10º04'S, 67º37'W) e seu entorno. Os dados foram obtidos entre agosto de 2005 a abril de 2006 em doze parcelas, localizadas em três áreas diferentes da floresta. Em cada área foram escolhidos quatro tipos de ambientes: floresta primária (mata), floresta secundária (capoeira), entorno (matriz) e floresta secundária (sucessão). Observou-se a presença de 27 espécies distribuídas em sete famílias. Maior abundância foi constatada na matriz dois e capoeira três, e a menor na sucessão um. A maior riqueza foi constatada na matriz dois, com o maior número de espécies exclusivas. A abundância de anuros correlacionou-se significativamente com a circunferência das árvores e lianas. A riqueza de anuros correlacionou-se marginalmente com a circunferência das árvores. A maior riqueza em ambientes de capoeiras e matriz pode ser explicada em grande parte pela existência nesses locais de poças d'água, maior heterogeneidade estrutural e poderem constituir estágios intermediários de perturbação. Esses estágios têm sido apontados como fatores que promovem e mantêm níveis elevados de biodiversidade. Ambientes com níveis intermediários de perturbação são importantes para a conservação da anurofauna.

Palavras-chave: Cronoseqüência; diversidade; estrutura da vegetação; perturbação; riqueza de anuro.


ABSTRACT

The objective of this work it was verify the abundance, richness, and the anuran composition in plots of vegetation of different succession stages in a forest and the matrix that surrounds it, of Acre (10º04'S, 67º37'W). The sampling was carried out between August 2005 and April 2006 in twelve plots located in three different sites in the forest. In each site four kinds of environments were chosen: primary forest (wood), secondary forest (capoeira), periphery (matrix) and secondary forest (succession). A total of twenty-seven species distributed in seven families was found. Greater abundance was registered in the plots of matrix two and capoeira three and the least in succession one. The richness was greater in matrix two, with the greater number of exclusive species. The abundance of anurans correlated significantly, with the average circumference at the breast height of the trees of the plots. The richness however correlated only marginally, with this structural feature. The larger richness in plots of capoeira and matrix can be explained partially by the existence of temporary ponds and more structural heterogeneity is able constitute intermediary stages in a gradient of perturbation and this can increase the biodiversity. Thus environments with intermediary levels of disturbance are important for the conservation of the diversity of anuran amphibians.

Key words: Cronosequence; diversity; perturbation; structure of vegetation; richness of anuran.


A estrutura física dos ambientes afeta a riqueza e composição da sua biota (SCHOENER 1970, ISHITANI et al. 2003). Nos ambientes terrestres vários componentes da estrutura da vegetação têm sido empregados na predição de características da sua fauna (PIANKA 1967, August 1983, FLOAATER & ZALUCKI 2000, VIDAL & CINTRA 2006). Freqüentemente, a estrutura da vegetação tem sido empregada nesse tipo de abordagem em termos de complexidade e heterogeneidade (AUGUST 1983). O tipo e intensidade de respostas dos animais dependem do grupo taxonômico em questão (TERBORGH & PETREN 1991).

A complexidade e heterogeneidade da vegetação podem ser responsáveis por diferenças entre os ambientes, em relação à produtividade primária, disponibilidade de recursos e microhabitats, interações interespecíficas e diferenças microclimáticas (CONNELL & SLATYER 1977, Sousa 1984, PICKETT & WHITE 1985).

Eventos de perturbação nos ambientes terrestres podem promover o processo de sucessão secundária da vegetação, o qual altera a composição florística e estrutura da vegetação local (SOUSA 1984). Isso, por sua vez, pode alterar a fauna tanto de invertebrados (RICHARDS 1926, SCHOENER 1970, BROWN & SOUTHWOOD 1987, BROWN 1991, STEFFAN-DEWENTER & TSCHARNTKE 2001) como de vertebrados (RICHARDS 1926, FONSECA 1989, NICHOLS & NICHOLS 2003). Os efeitos da sucessão florestal sobre a estrutura das assembléias de anuros são muito pouco conhecidos, em particular no bioma amazônico (TOCHER 1998).

Atualmente existem no mundo cerca de 5.362 espécies de anfíbios anuros, distribuídas entre 45 famílias (FROST 2007). Cerca de 45% dessas espécies ocorrem na América tropical (DUELLMAN 1978). No Brasil existem 776 (SBH 2005), espécies distribuídas em 10 famílias e somente na última década foram descritas no país cerca de 60 espécies, o que sugere que a diversidade desse grupo deve ser ainda maior (CALDWELL 1991, HEYER & HARDY 1991, ETEROVICK & SAZIMA 1998).

No Estado do Acre existem cerca de 126 espécies, distribuídas em oito famílias (SOUZA et al. 2003). Essa diversidade é grande, em relação a outros biomas (CARDOSO & SOUZA 1996, SOUZA & CARDOSO 2002, SOUZA et al. 2003). Contudo, pouco se conhece sobre a biologia e ecologia do grupo nessa região (BERNARDE et al. 1999, SOUZA et al. 2002, SOUZA & HADDAD 2003).

Os anfíbios são muito sensíveis as modificações no habitat, poluentes e a mudanças climáticas globais (PHILLIPS 1990, ALFORD & RICHARDS 1999). Estas perturbações têm provocado declínio e até mesmo extinção local de suas populações no sudeste do Brasil (HEYER et al. 1988). Por isso, são considerados excelentes bioindicadores de alterações ambientais (PHILLIPS 1990, VITT et al. 1990) e têm adquirido grande relevância nas avaliações ecológicas (HEYER et al. 1988).

O presente trabalho teve como objetivo verificar a abundância, a riqueza e a composição da anurofauna em ambientes de diferentes estágios sucessionais de cronoseqüências de uma floresta do Acre e seu entorno. Mais especificamente pretende testar as seguintes hipóteses: 1) ambientes menos perturbados e em estágios sucessionais mais avançados possuem maior riqueza e abundância de anuros; 2) a riqueza, composição florística e a estrutura da vegetação afetam a abundância, riqueza e composição de anuros; e 3) a complexidade e a heterogeneidade estruturais da vegetação são preditoras da abundância e riqueza de espécies.

Este trabalho faz parte de um estudo maior cujo objetivo principal é verificar os efeitos da sucessão florestal sobre a fauna, de invertebrados (MORATO & MARTINS 2005) e representa o primeiro esforço no sentido de investigar esses efeitos sobre um grupo de vertebrados na Amazônia Sul-Ocidental.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado na Reserva Experimental Catuaba (REC) (10º04'S, 67º37'W e altitude média de 214 m). A REC pertence à Universidade Federal do Acre (UFAC) e localiza-se próxima ao entroncamento das Rodovias BR-364 e 317 no município de Senador Guiomard, Acre.

A área, como um todo, consiste de um fragmento florestal de vegetação, com cerca de 2.111 ha, isolado de porções de floresta primária aproximadamente por distâncias variáveis entre 0,8 e 7,4 km. Sua vegetação é constituída principalmente por floresta tropical de terra firme e inclui floresta aberta com bambus e palmeiras (forma predominante), floresta densa, florestas secundárias (capoeiras) e pastagens. O sub-bosque é muito fechado e possui predomínio de cipós e bambus. O dossel é aberto e possui altura variando entre 20-40 m. O relevo é suavemente ondulado salvo próximo a rede de drenagem a qual é constituída por nove igarapés. Os principais tipos de solo são latossolo vermelho e podzólico vermelho (ACRE 1991, MORATO & MARTINS 2005).

A matriz da paisagem que envolve o entorno da REC é o resultado do processo comum de uso da terra na região (FUNTAC 1990, ACRE 1991, 2000): bordas de floresta, pastagens, campos agrícolas, pomares, habitações e estradas.

A temperatura média anual na região varia entre 22 a 24ºC. Contudo, nos períodos de mais frios (em geral, no mês de agosto) a temperatura pode variar entre 12 a 14ºC. O total médio de precipitação anual é de 1.973 mm, sendo janeiro o mês mais chuvoso com uma média de 298,6 mm e julho o menos com 25,2 mm (MESQUITA & PAIVA 1995, MESQUITA 1996). Há três estações definidas, em relação à precipitação: 1) estação chuvosa (dezembro, janeiro, fevereiro e março = 55,8% das chuvas); 2) estação seca (junho, julho e agosto = 5,7%); e 3) estação intermediária (setembro, outubro, novembro, abril e maio = 38,5%).

Os anuros foram amostrados em 12 parcelas de aproximadamente 1 ha, localizadas em três locais diferentes da REC. Em cada local foram escolhidos quatro tipos de ambientes (tratamentos): 1) floresta primária, aqui denominada de mata, a qual representa a área menos perturbada e em estágio sucessional mais avançado e constitui a floresta típica da região; 2) floresta secundária, aqui denominada capoeira, a qual também está em processo sucessional, porém mais lento; 3) entorno, aqui denominado de matriz, a qual é constituída por áreas desmatadas, em geral fora do perímetro da reserva, ocupadas por fazendas que possuem pastagens, plantações, habitações humanas, bordas de floresta e corpos d'água de tamanhos variáveis e 4) floresta secundária, aqui denominada sucessão, a qual foi experimentalmente desmatada na estação seca de 2001, queimada, limpa, pulverizada de forma homogênea com herbicida e deixada em regeneração.

Cada área constituiu uma unidade amostral. Portanto, cada conjunto de áreas de diferentes ambientes representa um gradiente sucessional: mata, capoeira, sucessão e matriz. Cada tipo de ambiente (tratamento) foi repetido três vezes. Dessa forma, cada tratamento e suas respectivas repetições foram designados como: mata 1, mata 2, mata 3, capoeira 1, capoeira 2, capoeira 3, matriz 1, matriz 2, matriz 3, sucessão 1, sucessão 2 e sucessão 3. Ambientes diferentes, mas com o mesmo número, pertencem à mesma repetição ou conjunto dentro da REC. Cada repetição equivale a uma cronoseqüência (TERBORGH & PETREN 1991) ou gradiente, em relação aos estágios de sucessão da vegetação.

Áreas de uma mesma repetição situam-se mais próximas entre si do que de repetições diferentes. As distâncias entre as áreas variam de aproximadamente 107 a 6.430 m. As áreas da repetição 1 são mais distantes entre si do que as das outras repetições e as da repetição 3 são as mais próximas. O conjunto de áreas da repetição 1 é também o mais distante dos demais.

Cada uma das áreas, independentemente do tipo de estrutura da sua vegetação, foi dividida, por trilhas de aproximadamente um metro de largura, em 12 sub-parcelas de 30 x 20 m. As trilhas foram feitas com a finalidade de facilitar a locomoção dos pesquisadores, tendo em vista que, tanto nas florestas secundárias como nas primárias do Acre, o sub-bosque é muito fechado e de difícil trânsito.

As amostragens foram realizadas num período de nove meses entre agosto de 2005 e abril de 2006, totalizando 22 dias e cerca de 126 horas. Os dados foram tomados através de observações visuais e auditivas, por meio de caminhadas diurnas e noturnas através das parcelas. Nas matrizes as caminhadas foram feitas ao acaso e nas demais áreas foram sistematizadas ao longo das trilhas. O esforço amostral em cada área foi de 1h30min. Alguns espécimes foram capturados, fotografados, sacrificados, fixados em solução de formalina a 10% e posteriormente transferidos para solução alcoólica a 70% e depositados na Coleção de anfíbios da Universidade Federal do Acre, servindo como material testemunho.

Os dados climatológicos correspondentes ao período de amostragem foram obtidos na Estação de Meteorologia do Campus da UFAC, Rio Branco (Tab. I).

Em cada parcela, concomitantemente a amostragem de anuros, foram medidas treze variáveis a fim de caracterizar a estrutura geral da vegetação: altura das árvores, circunferência á altura do peito (CAP) de árvores e lianas (CAP > 8 cm), densidade de árvores, densidade de caules, área basal, cobertura do dossel, densidade de colmos de bambus, densidade de arbustos (altura > 0,5 m), altura de arbustos, densidade de troncos no chão e riqueza florística. Considerou-se como árvore todo elemento lenhoso com altura igual ou superior a 3 m e como arbusto toda forma vegetal entre 0,5 e 3 m de altura.

A partir dos valores de todas essas variáveis foi gerado um índice operacional de complexidade e outro de heterogeneidade estrutural da vegetação de cada parcela a partir de AUGUST (1983) e WADDINGTON et al. (1986). Cada parcela foi ranqueada em relação aos valores médios para cada variável estrutural. Não foram atribuídos pesos diferentes às variáveis. As parcelas com os valores mais baixos receberam escores menores. Após, os escores de cada variável foram somados para cada parcela. Essa quantidade final foi denominada "índice de complexidade estrutural" da vegetação. Portanto, a parcela com o maior valor desse índice foi aquela com valores elevados para a maior parte das variáveis consideradas. Procedimento semelhante foi adotado para o cômputo do "índice de heterogeneidade estrutural" da vegetação. Contudo, neste caso cada parcela foi ranqueada em relação aos valores das variâncias de cada variável. De forma similar, a parcela mais heterogênea foi, portanto, a que apresentou o maior valor dessa soma de escores. Neste trabalho, uma parcela com grande complexidade estrutural é aquela com valores elevados para as variáveis consideradas da vegetação. Por outro lado, uma parcela com grande heterogeneidade é aquela com uma grande variação em relação a essas mesmas variáveis. A complexidade aqui considerada é determinada, portanto, pela magnitude de qualquer variável da vegetação e a heterogeneidade pela magnitude de sua variação.

As análises estatísticas foram realizadas através dos programas Statistica 5.0 (1995), BioDiversity Professional 2.0 (1997) e Bioestat 2.0 (2000) e foram baseadas em LUDWING & REYNOLDS (1988), SIEGEL & CASTELLAN (1988) e SOKAL & ROHLF (1995). Para todas as análises considerou-se a = 0,05.

As analises de correlações foram realizadas através do coeficiente de Pearson. Os padrões de riqueza de espécies de anuros obtidos em cada cronoseqüência foram correlacionados através do coeficiente de concordância de Kendall.

A similaridade em relação à composição faunística foi analisada através da geração de uma matriz de similaridade empregando o índice binário de Jaccard. Os valores obtidos foram posteriormente empregados em uma amalgamação através do método de agrupamento por pares de médias não ponderadas (UPGMA).

RESULTADOS

Foram registradas 27 espécies, distribuídas em sete famílias: Aromobatidae (3), Brachycephalidae (2) Bufonidae (2), Dendrobatidae (2), Hylidae (10), Leptodactylidae (7) e Microhylidae (1) (Tab. II). As espécies mais abundantes foram Leptodactylus andreae (Muller, 1923) (27%), Eleutherodactylus conspicillatus (Günther, 1858) (19%) e Rhinella margaritifer (Laurenti, 1768) (10%). Leptodactylus andreae ocorreu em todas as parcelas e Eleutherodactylus conspicillatus somente não foi registrada na matriz 2. A nomenclatura utilizada segue Frost (2007).

Maior abundância foi constatada na matriz 2 e capoeira 3, e a menor na sucessão 1. A maior riqueza foi constatada na matriz 2 (12 espécies), matriz 3 (9), capoeira 2 (9) e capoeira 3 (8). Na matriz 2 também foi encontrado o maior número de espécies exclusivas (6). A abundância de registros nas parcelas correlacionou-se significativamente com a sua riqueza em espécies (r = 0,862; p = 0,0003; g.l. = 10). De modo geral, as espécies mais abundantes foram as que também ocorreram em maior número de parcelas (r = 0,9546; p = 0,000; g.l. = 25). Cerca de 48% do total de espécies foram registradas uma única vez.

Nas três cronoseqüências o menor número de espécies foi constado nas parcelas de sucessão e o maior nas parcelas de matriz e capoeira (Fig. 1). O número de espécies registrados nas parcelas de mata também foi pequeno nas três cronoseqüências. Houve uma concordância significativa (W = 3,649; p = 0,0000; g.l. = 3) entre as três cronoseqüências, em relação aos padrões de riqueza das parcelas. Resultado semelhante foi obtido em relação à abundância de registros (W = 5,689; p = 0,0000; g.l. = 3).

Um dendrograma de similaridade (índice de Jaccard) em relação á composição da anurofauna entre as parcelas é mostrado na figura 2. As espécies registradas na mata 1 foram as mesmas que as registradas na sucessão 1. A matriz 2 apresentou o menor valor de similaridade em relação as outras parcelas. De modo geral, as parcelas da cronoseqüência 1 apresentaram pequena similaridade com parcelas das outras cronoseqüências. As parcelas de mata apresentaram entre si maior similaridade média (39,7%) do que as parcelas de capoeira (37,3%), sucessão (37,1%) e matriz (28,8%).

A abundância de anuros correlacionou-se significativamente com a circunferência das árvores e lianas (CAP), (r = 0,670; p = 0,017; g.l. = 10). No entanto, a abundância não correlacionou-se com a complexidade, nem com a heterogeneidade da vegetação.

A riqueza de anuros correlacionou-se marginalmente com a circunferência das árvores (CAP), das parcelas amostrais (r = 0,569; p = 0,053; g.l. = 10) de uma maneira semelhante à abundância. E não houve correlação entre riqueza, complexidade e heterogeneidade, no ambiente.

DISCUSSÃO

A única variável da estrutura da vegetação que individualmente correlacionou-se com a abundância e riqueza de anuros foi á circunferência das árvores e lianas (CAP). Os índices de complexidade e heterogeneidade não apresentaram correlação significativa com a abundância e riqueza de anuros. Entretanto, a abundância e a riqueza de anuros das áreas podem ser explicadas, pelo menos em parte, pela estrutura geral da vegetação, uma vez que os sapos foram mais comuns na área de matriz 2. Isso sugere que esses parâmetros das assembléias de anuros devem sofrer a influência conjunta de um grande número de variáveis que não apenas as consideradas neste trabalho, em especial da vegetação. Por outro lado, nenhuma dessas variáveis possui uma relação direta com a existência de corpos d'água, os quais foram mais comuns na matriz 2 e são provavelmente o componente do ambiente mais importante para a reprodução desses animais.

GIARETTA et al. (1999) mostrou que a abundância de anuros da serapilheira em uma floresta do sudeste do Brasil corrrelacionou-se positivamente com a cobertura do solo por serapilheira, com a profundidade da camada de serapilheira no solo, massa seca de serapilheira e a densidade de troncos no solo. A altitude também correlacionou-se positivamente com a densidade e a biomassa dos anuros.

ALLMON (1991) em seu estudo na Floresta Amazônica mostrou que a densidade de anuros da serapilheira varia muito entre florestas tropicais do mundo todo. Este fato pode estar relacionado às variações na disponibilidade de nutrientes e características de diferentes tipos de solo, juntamente com as idades das florestas em questão e, portanto, com o estágio sucessional. A abundância e a riqueza de anuros foram comparadas com variáveis da estrutura da vegetação, inclusive com a espessura da serapilheira. Contudo, essa variável não correlacionou-se com a abundância de anuros. A abundância e a diversidade dentro das parcelas foram fortemente sazonais e apresentaram um pico no final da estação úmida. As abundâncias de árvores, ervas e palmeiras não correlacionou-se com a abundância geral de anuros. A abundância de troncos no chão e a topografia também não explicaram a abundância de anuros. A massa de serapilheira também não explicou a abundância de anuros. Portanto, isso mostra que variáveis do ambiente tomadas isoladas talvez não sejam tão importantes como preditoras da ocorrência de anuros pelo menos as associadas á estrutura da vegetação.

Poucos estudos têm abordado os efeitos da sucessão sobre as espécies de animais e outros organismos. A maioria enfatiza as assembléias de vertebrados como mamíferos, aves e lagartos (MARGALEF 1977, BROWN & SOUTHWOOD 1987, FONSECA 1989, BROWN 1991, NICHOLS & NICHOLS 2003). Contudo, algumas características específicas do ambiente podem influenciar as assembléias de anuros, tais como a disponibilidade de determinados micro-hábitats e poças d'água.

TOCHER et al. (1997) investigou na Amazônia Central os efeitos da fragmentação florestal sobre a comunidade de anuros por um período de 10 anos. Após o isolamento, os maiores fragmentos apresentavam maior número de espécies e a riqueza diminuiu com o tamanho do fragmento. Contudo, algumas espécies foram mais comuns em fragmentos de um tamanho do que de outro. Outras ainda apresentaram uma ocorrência muito menor em áreas de floresta primária contínua do que em fragmentos de menores tamanhos. Individualmente, portanto, as respostas podem ser muito idiossincráticas e dependentes da espécie.

A riqueza de espécies encontrada no presente estudo (27) foi relativamente elevada, quando comparada com a obtida (31) no único levantamento de anfíbios realizado anteriormente para toda a Reserva Catuaba (CARDOSO & SOUZA 1996). O número encontrado no presente trabalho foi ligeiramente menor possivelmente por ter sido realizado em apenas algumas parcelas localizadas dentro da reserva e em seu entorno, diferentemente do realizado por CARDOSO & SOUZA (1996), no qual, as amostragens foram realizadas em toda a reserva. No entanto, CARDOSO & SOUZA (1996) não informaram o esforço amostral realizado em seu estudo o que impossibilita uma comparação mais segura.

Todas as espécies aqui registradas são conhecidas para o Estado do Acre (SOUZA & CARDOSO 2002). No entanto, três entidades não tiveram suas identificações ao nível de espécie precisamente definidas (Allobates sp., Eleutherodactylus sp. e Leptodactylus sp.). O maior número de espécies foi constatado na matriz 2, possivelmente por apresentar uma poça temporária, a qual é sítio de reprodução para várias espécies.

A maior riqueza em ambientes de capoeira e matriz pode ser explicada em grande parte pela existência nesses locais de poças d'água, pela sua maior heterogeneidade estrutural e pelo fato desses ambientes poderem constituir estágios intermediários de perturbação (CONNELL 1978, SOUSA 1984, HUSTON 1994, ROSENZWEIG 1995, TOKESHI 1999). Mudanças na composição das assembléias de vários grupos de animais, vertebrados e invertebrados, ao longo da sucessão da vegetação também vêm sendo relatadas em diferentes biomas (RICHARDS 1926, MARGALEF 1977, SOUSA 1984, USHER & JEFFERSON 1991, THOMAS 1995, STEFFAN-DEWENTER & TSCHARNTKE 1997, BALMER & ERHARDT 2000, IMBEAU et al. 2003, NICHOLS & NICHOLS 2003).

Leptodactylus andreae foi encontrada em todos os ambientes, sendo considerada generalista, corroborando outros estudos na Amazônia (TOCHER et al. 1997, TOCHER 1998, BRANDÃO 2002).

Em ambientes menos perturbados provavelmente algumas espécies excluem outras, reduzindo a diversidade (TOWNSEND et al. 2006). Os ambientes mais perturbados serão colonizados por espécies pioneiras que são mais adaptadas a essa situação (WHITE & PICKETT 1985, ROSENZWEIG 1995, LERTZMAN & FALL 1998). Ambientes heterogêneos devem promover maior diversidade, uma vez que favorecem a coexistência de espécies com diferentes graus de especialização. Uma explicação adicional para a alta diversidade nesses ambientes é a hipótese dos níveis intermediários de perturbação, segundo a qual a freqüência e intensidade de distúrbios afetam os padrões de diversidade. Um nível moderado de perturbação favoreceria tanto espécies de estágios sucessionais avançados como pioneiras, o que resultaria em uma alta diversidade geral de espécies (GRIME 1973, HORN 1975, SOUSA 1984, WHITE & PICKETT 1985, ROSENZWEIG 1995, LERTZMAN & FALL 1998, TOKESHI 1999).

Níveis intermediários de perturbação têm sido apontados como fatores que promovem e mantêm níveis elevados de biodiversidade (FONSECA 1989, BROWN 1991). Ambientes que são mais heterogêneos espacialmente podem acomodar mais espécies, porque eles provêm uma maior quantidade de micro-hábitats, uma gama maior de microclimas e mais esconderijos as presas, aumentando assim a diversidade de recursos (TOWNSEND et al. 2006). Além disso, a heterogeneidade espacial promoveria uma maior variação espacial também nos fatores abióticos do ambiente o que poderia favorecer no final uma maior riqueza de espécies (TOWNSEND et al. 2006).

GASCON et al. (1999) também encontraram resultados semelhantes com grupos de vertebrados na Amazônia Central. Seu estudo chamou a atenção para a importância de áreas de matriz e pequenos fragmentos de floresta para a manutenção da diversidade de vertebrados e contemplou quatro grupos de animais: aves, mamíferos de pequeno porte, anfíbios e formigas. As espécies mais abundantes na matriz foram os mamíferos de pequeno porte e os sapos, que aumentaram depois do isolamento do fragmento, enquanto que aves e formigas diminuíram. Para todos os quatro grupos uma alta proporção de espécies de floresta primária foi encontrada em ambientes de matriz. Os três grupos de vertebrados exibiram correlações positivas e significativas entre abundância na matriz e vulnerabilidade á fragmentação florestal. Isso sugere que espécies que evitam a matriz tendem a se extinguir ou apresentarem uma pequena abundância nos fragmentos, enquanto aquelas que toleram ou exploram a matriz permanecem frequentemente estáveis ou apresentam uma abundância relativamente maior do que as outras.

Resultados encontrados por MORATO & MARTINS (2005), na mesma região, em um estudo sobre vespas e abelhas solitárias são parecidos com os aqui encontrados, mostrando que áreas de capoeira e matrizes por apresentarem uma maior heterogeneidade da vegetação também possuem maior riqueza desses organismos. Isso explica, em parte, uma maior diversidade de espécies.

No presente estudo, as matrizes não constituem gradientes naturais de sucessão, mas as mesmas podem estar funcionando como ambientes estruturalmente intermediários, por possuírem árvores frutíferas, bordas de floresta, árvores remanescentes o que acarreta uma maior heterogeneidade do ambiente e favorece uma maior diversidade.

A análise de similaridade realizada mostrou que áreas amostrais de estágios sucessionais e estrutura da vegetação semelhantes não apresentaram composição da anurofauna semelhante. Isso mais uma vez mostra que a vegetação teve uma influência direta pequena sobre a composição de anuros.

A riqueza de vespas e abelhas obtidas por MORATO & MARTINS (2005) nas mesmas áreas amostrais do presente estudo correlacionou-se com a riqueza da anurofauna. Isso indica que possivelmente, os anuros podem funcionar como biondicadores da diversidade de outros grupos da biota, inclusive de invertebrados, ou então grupos diferentes da fauna podem responder de forma semelhante aos efeitos da perturbação e sucessão.

De modo geral, as parcelas de floresta primária foram mais semelhantes entre si em relação á composição de anuros do que as demais áreas. A estrutura da vegetação e composição florística de áreas sucessionalmente mais jovens é em grande parte influenciada pela estocasticidade, características biológicas das espécies, interações entre elas e entre os demais componentes bióticos e abióticos (GUARIGUATA & OSTERTAG 2001). Portanto, a ocupação dessas áreas pela fauna também deve ser um evento influenciado pela estocasticidade. Os únicos outros grupos faunísticos amostrados nas áreas onde foi realizado o presente trabalho foram vespas e abelhas solitárias (MORATO & MARTINS 2005). Os resultados de maior riqueza presente em capoeira e matriz foram muito semelhantes aos obtidos neste trabalho para os anuros. Isso mostra que florestas secundárias e ambientes de entorno são muitos importantes para a conservação da diversidade faunísticas tanto de vertebrados como de invertebrados.

Portanto, ambientes com níveis intermediários de perturbação são importantes para a conservação da anurofauna.

AGRADECIMENTOS

Ao CNPq pela concessão da bolsa de Iniciação Científica a V.M.S e aos amigos e companheiros de campo: Alexandre S. da Cruz e Marilene V. da Silva.

LITERATURA CITADA

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15 de março de 2009
Variabilidade físico-química da farinha de mandioca
Ciência e Tecnologia de Alimentos vol.28 no.4 Campinas Oct./Dec. 2008

Physicochemical variability of cassava flour

Joana Maria Leite de SouzaI, *; Jacson Rondinelli da Silva NegreirosII; Virgínia de Souza ÁlvaresIII; Felícia Maria Nogueira LeiteIV; Maria Luzenira de SouzaV; Fabiana Silva ReisVI; Francisco Álvaro Viana FelisbertoVII

IEmbrapa Acre – CPAF-AC, Laboratório de Farinha, BR 364, Km 14, CEP 69908-970, Rio Branco - AC, Brasil, E-mail: joana@cpafac.embrapa.br
IIEmbrapa Acre – CPAF-AC, Genética e Melhoramento de Plantas, BR 364, Km 14, CEP 69908-970. Rio Branco - AC, Brasil, E-mail: jacson@cpafac.embrapa.br
IIIEmbrapa Acre – CPAF-AC, Laboratório de Tecnologia de Alimentos, BR 364, Km 14, CEP 69908-970. Rio Branco - AC, Brasil, E-mail: virginia@cpafac.embrapa.br
IVSecretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar – SEAPROF, CEP 69908-620, Rio Branco - AC, Brasil, E-mail: felicialeite@hotmail.com
VDepartamento de Produção Vegetal, Universidade Federal do Acre, UFAC, BR-364, 6637, Km 04, Distrito Industrial, CEP 69.915-900, Rio Branco - AC, Brasil, E-mail: mluzen@hotmail.com
VIEmbrapa Acre – CPAF-AC, Laboratório de Tecnologia de Alimentos, BR 364, Km 14, CEP 69908-970, Rio Branco - AC, Brasil, E-mail: fabianasilvareis@hotmail.com
VIIEmbrapa Acre – CPAF-AC, Laboratório de Bromatologia, BR 364, Km 14, CEP 69908-970, Rio Branco - AC, Brasil, E-mail: alvaro@cpafac.embrapa.br


RESUMO

Este trabalho teve como objetivo avaliar a variabilidade físico-química da farinha de mandioca comercializada no município de Cruzeiro do Sul - AC por meio da análise multivariada. Foram analisadas 18 amostras de diferentes farinhas de mandioca, quanto às variáveis: umidade, cinzas, lipídios, proteína bruta, fibra bruta, carboidratos totais, acidez e pH. A aplicação da análise multivariada de agrupamento segundo o método de Tocher permitiu o estabelecimento de cinco grupos de farinhas. Os grupos IV e V foram considerados de alta qualidade, o primeiro por apresentar o menor teor de cinzas e o maior de proteína bruta, e o segundo por apresentar o menor teor de umidade e o maior teor de carboidratos dentre os grupos. As técnicas de análise multivariada foram coerentes para identificar as farinhas mais heterogêneas. A identificação de grupos distintos indica a existência de variabilidade nas farinhas de mandioca comercializadas na região de Cruzeiro do Sul - AC, podendo esta variabilidade estar relacionada, especialmente com o processo de produção.

Palavras-chave: farinha de mandioca; heterogeneidade; análise multivariada.


ABSTRACT

The goal of this work was to evaluate the physicochemical variability of the cassava flour, sold in the city of Cruzeiro do Sul – in the state of AC (Brazil), by multivaried analysis. The following contents of eighteen different cassava flours were analyzed: moisture, ashes, lipids, protein, fiber, carbohydrates, acidity, and pH. Grouping multivaried analysis according to the Tocher method allowed the establishment of five groups of flours. The groups IV and V were considered high quality groups. The first one due to the lower ashes and higher protein contents; and the second due to the lower moisture and higher carbohydrates contents. The multivaried analysis techniques presented good responses to identify most heterogeneous flours. The physicochemical variability seen in the five different groups probably indicates different production processes.

Keywords: cassava flour; heterogeneous; multivaried analysis.


1 Introdução

A farinha é o principal derivado da mandioca para a alimentação humana no Brasil, visto ser consumida em todo o País, chegando a ser, em algumas regiões do Norte e Nordeste, a principal fonte energética. Apesar de a farinha constituir a forma mais ampla de aproveitamento industrial da mandioca, ela não é um produto muito valorizado, sobretudo pela elevada variabilidade de tipos de farinha, o que dificulta a comercialização.

Essas diferenças nas farinhas oferecidas ao mercado são decorrentes de vários fatores como cultivar, clima, solo, ponto de colheita, variabilidade genética, matéria-prima e outros, mas o principal fator responsável é o método de processamento. Segundo Lima (1982), a heterogeneidade da farinha é devida, principalmente, à fabricação por pequenos produtores para seu uso diário.

No Estado do Acre, a farinha de mandioca é processada de forma artesanal em pequenas unidades denominadas casas-de-farinha, que utilizam matéria-prima e mão-de-obra provenientes da agricultura familiar, e grande parte está localizada no próprio local de produção da matéria-prima. Nestes estabelecimentos, cada produtor segue um processo próprio de fabricação da farinha. Cereda (2005) cita que fornos muito quentes ou frios, cargas grandes ou muito pequenas, prensagem mais ou menos intensiva são alguns dos fatores que podem influenciar o padrão de qualidade da farinha. Essas variações tornam quase impossível a proposta de um padrão nacional de qualidade. Mesmo em uma única propriedade, por conseqüência do sistema artesanal de produção, é raro ocorrer uniformidade em fabricações sucessivas.

As técnicas de estatística multivariada que permitem a quantificação da dissimilaridade pela distância, assim como análises de agrupamento, podem ser instrumentos úteis na identificação de produtores que fabricam farinha de mandioca com características semelhantes, contribuindo para a comercialização unificada envolvendo vários produtores, possibilitando a uniformidade do produto comercializado.

Dentre os métodos de análises multivariadas existentes, a análise de agrupamento pode ser importante ferramenta, a qual tem por objetivo reunir, por algum critério de classificação, a unidade amostral em vários grupos, de modo que exista homogeneidade dentro do grupo e heterogeneidade entre grupos; tais técnicas podem ser complementadas com a análise de componentes principais (CRUZ et al., 2004).

Desta forma, o objetivo deste trabalho foi analisar a variabilidade físico-química da farinha de mandioca comercializada no município de Cruzeiro do Sul - AC por meio de análise multivariada.

2 Material e métodos

2.1 Material

Amostras de farinha de mandioca foram coletadas, em novembro de 2006, em 14 casas-de-farinha nos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima e Rodrigues Alves - AC, onde foram processadas de forma artesanal em fornos que não possuem sistema de controle de temperatura. Os tratamentos foram compostos pelas diferentes farinhas obtidas, conforme descrição na Tabela 1, sendo que os tratamentos 1, 2, 3 e 4 foram provenientes de classificações particulares de um mesmo fabricante, em que: T1 = farinha com coco; T2 = farinha grossa, T3 = farinha peneirada e T4 = farinha com açafrão.

As amostras coletadas, de aproximadamente 1 kg cada, foram acondicionadas em sacos plásticos e transportadas via aérea para a cidade de Rio Branco, Acre, onde foram encaminhadas para o Laboratório de Tecnologia de Alimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa-AC).

2.2 Caracterização físico-química

  • Teor de umidade - determinado de acordo com o método 31.1.02 da AOAC (1995), usando-se estufa a 105 °C por 8 horas.

  • Teor de cinzas - as amostras foram carbonizadas até cessar a liberação de fumaça e, posteriormente, calcinadas em mufla a 540 °C até peso constante, segundo o método 31.1.04 da AOAC (1995).

  • Teor de lipídios - obtido por extração em Soxhlet durante 10 horas e posterior evaporação do solvente, de acordo com o método 31.4.02 da AOAC (1995).

  • Teor de proteínas - determinado pela técnica de micro-Kjeldahl, baseado em hidrólise e posterior destilação da amostra, utilizando o fator 6,25 x %N, de acordo com o método 31.1.08 da AOAC (1995).

  • Teor de fibra bruta - através de digestão do material em solução de H2SO4 a 1,25% p/v por 30 minutos, seguida de NaOH 1,25% m/v por mais 30 minutos, de acordo com AOAC (1995).

  • Carboidratos - estimados por diferença, subtraindo de 100 o somatório de proteínas, lipídios, cinzas, umidade e fibra bruta e os resultados expressos em percentual, segundo Normas Analíticas do Instituto Adolfo Lutz (1976).

  • Acidez total titulável - determinado de acordo com o método 942.15 da AOAC (1995).

  • pH 9 g da amostra foram misturadas em 60 mL de água destilada, homogeneizados e deixados em repouso por 30 minutos. A leitura foi feita em medidor de pH digital.

2.3 Análise estatística dos resultados

A variabilidade entre as 18 amostras de farinhas de mandioca foi estimada por análise de agrupamento em que a medida de dissimilaridade utilizada foi a distância euclidiana média padronizada. As distâncias euclidianas médias entre cada par de farinhas foram calculadas segundo Cruz et al. (2004)(Equação 1):

em que S(Xj)é o desvio padrão dos dados do j-ésimo caráter (Equação 2), então:

em que dii' é a distância euclidiana média baseada em dados padronizados e n é o número de caracteres analisados. Essa distância foi escolhida pelo fato de os dados terem sido coletados em experimento que não envolve delineamento experimental. Obteve-se, assim, uma matriz de distância pxp, em que p = 18. Posteriormente, aplicou-se o método aglomerativo de otimização de Tocher (RAO, 1952) para a formação dos grupos, o qual teve como critério o valor máximo da medida de dissimilaridade encontrado no conjunto das menores distâncias envolvendo cada tratamento. Outro método de agrupamento utilizado foi o método hierárquico do vizinho mais próximo para formação de um dendrograma entre os grupos de produtores.

Foi quantificada a contribuição relativa dos caracteres para o estudo da variabilidade da farinha comercializada, utilizando o critério proposto por Singh (1981). Foi utilizado o aplicativo computacional Genes – versão 2007 (CRUZ, 2001) para auxiliar nas análises estatísticas.

3 Resultados e discussão

Os resultados das determinações físico-químicas das 18 amostras de farinha de mandioca estão apresentados na Tabela 2. Observou-se em relação aos valores de umidade, cinzas, acidez e carboidratos que todas as amostras estão de acordo com os padrões estabelecidos pela Legislação Brasileira para farinhas de mandioca, Portaria nº 554 de 30.08.1995 da Secretaria da Agricultura, do Abastecimento e Reforma Agrária (BRASIL, 1995), que estabelece valores máximos de 13% de umidade, 1,5% de cinzas, 3% de acidez e o mínimo de 70 a 75% para carboidratos.

As farinhas analisadas apresentaram variações nas características apresentadas, com teores de 8,10 a 12,02% para umidade; de 0,38 a 0,93% em cinzas; de 0,85 a 2,58% de proteína bruta; de 0,21 a 1,91% de lipídios; de 1,60 a 2,71% para fibra bruta; de 83,34 a 88,36% de carboidratos totais; de 1,09 a 2,89 meq NaOH.100 g–1 de acidez; e de 4,53 a 4,95 para pH (Tabela 2). Estes resultados estão de acordo com os encontrados por Dias e Leonel (2006), Aryee et al. (2006), Ferreira Neto et al. (2003) e Paiva (1991).

Com base nos dados físico-químicos obtidos a partir das amostras de farinhas coletadas, obteve-se como medida de dissimilaridade, a distância euclidiana média padronizada, a qual foi utilizada para a formação dos grupos.

A Tabela 3 apresenta os grupos de farinha e as médias de cada grupo quanto às análises físico-químicas obtidas. Por meio do agrupamento de Tocher, verifica-se que as 18 amostras de farinhas avaliadas propiciaram a formação de 5 grupos distintos de farinha.

Constata-se na Tabela 3 que o grupo I foi formado pela maioria dos tratamentos, constituído por 12 destes (amostras diferentes): 1, 2, 4, 5, 8, 9, 10, 12, 14, 16, 17, 18, os quais apresentaram valores médios entre os demais grupos para todas as características físico-químicas avaliadas.

O grupo II, constituído pelos tratamentos 11, 13 e 15, foi considerado o de menor interesse por apresentar o maior teor médio de umidade (11,31%), além dos menores teores de proteína bruta (0,93%) e de carboidratos (84,02%). Apenas a acidez, menor valor médio dentre os grupos (1,47 meq NaOH.100 g–1), foi a característica considerada adequada para as farinhas deste grupo.

A avaliação do teor de umidade da farinha de mandioca tem grande importância, em razão da sua influência na vida de prateleira de alimentos, tendo em vista que níveis maiores que 13% podem proporcionar crescimento microbiano e deterioração em curto tempo. Dessa forma, baixos percentuais de umidade são favoráveis a uma maior estabilidade e vida-de-prateleira do produto. Em características como cinzas, proteínas e lipídios pode haver variações entre as amostras de farinha devido às características intrínsecas das raízes da mandioca. Contudo, o teor de umidade, por exemplo, está relacionado com o seu processo de fabricação (CHISTÉ et al., 2006).

Como todas as amostras neste trabalho foram coletadas logo depois de concluído o processamento da farinha, certamente o maior teor de umidade encontrado nas amostras (tratamentos) do grupo II (Tabela 3) foi devido a uma menor temperatura e/ou tempo de torração, parâmetros que geralmente não são medidos nos processos de fabricação artesanal.

Além destas características, este grupo teve o maior valor médio de fibra bruta de todos os grupos (Tabela 3). As fibras alimentares exercem funções gastrintestinais através de sua ação física, capacidade de hidratação e de aumentar o volume e a velocidade de trânsito do bolo alimentar e fecal. Possuem também a capacidade de complexar-se com outros constituintes da dieta por meio de vários mecanismos, podendo arrastá-los em maior quantidade na excreção fecal. Dessa forma, tanto nutrientes essenciais, como proteínas, minerais e vitaminas, como substâncias tóxicas, poderão ser excretadas em maior ou menor quantidade, dependendo da qualidade e da quantidade da fibra presente na dieta (RAUPP et al., 1999).

Mattos e Martins (2000) classificaram os alimentos de acordo com o seu teor de fibras: baixo (inferior a 2,4 g fibras/100 g), moderado (de 2,4 a 4,4 g fibras/100 g) ou alto (superior a 4,4 g fibras/100 g). De acordo com essa classificação, as farinhas do grupo II apresentaram teor moderado (2,54%) e os demais grupos, teor baixo de fibras (de 1,60 a 2,36%) (Tabela 3).

O grupo III, constituído apenas pelo tratamento 6, também não se incluiu como um grupo de farinha de boa qualidade, já que teve o maior valor de cinzas (0,93%). Outras características contrastantes com demais grupos foram o maior teor de lipídios (1,91%) e maior pH (4,85) encontrado dentre todas as médias (Tabela 3).

O pH é um fator de grande importância na limitação da capacidade de desenvolvimento de microrganismos no alimento. Em função deste parâmetro, de acordo com Soares et al. (1992), os alimentos podem ser classificados em: pouco ácidos (pH > 4,5), ácidos (4,5 a 4,0) e muito ácidos (<4,0). href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-20612008000400022&script=sci_arttext&tlng=en#tab03">Tabela 3).

O grupo IV foi constituído somente pelo tratamento 7, considerado de alta qualidade por apresentar o menor teor de cinzas (0,38%) e maior teor de proteína bruta (2,58%) (Tabela 3).

As cinzas são o resíduo mineral fixo resultante da incineração da amostra do produto (BRASIL, 1995) e valores maiores que a tolerância máxima permitida na Legislação Brasileira, 1,5%, podem ser um indicativo de teores significativos de Ca, P, Fe e Mg, como também, mais provavelmente, indicam contaminação por material estranho ao produto ocasionado por falhas em algumas etapas do processamento (PAIVA, 1991). Trabalho realizado por Souza e Menezes (2004) mostra a composição centesimal da farinha de mandioca, proveniente de matéria-prima cultivada, processada e comercializada em Campinas-SP, na qual o valor de cinzas foi 0,74%, dentro do limite estabelecido pela legislação. Desta forma, níveis baixos de cinzas na farinha de mandioca são favoráveis para uma maior qualidade desta.

As farinhas em geral apresentam um teor de proteínas bastante baixo, o que já é esperado frente à composição da raiz da mandioca (ALBUQUERQUE et al., 1993). Desta forma, um elevado teor de proteína na farinha de mandioca é recomendado, sendo este dependente da variedade utilizada. Souza e Menezes (2004) encontraram 1,21% de proteína na farinha obtida em Campinas-SP, menor apenas que o valor encontrado para este grupo IV. Tal variação é pertinente à oscilação dos fatores que influenciam na composição química dos alimentos.

O grupo IV apresentou também o menor teor de lipídios dentre os demais grupos formados (0,33%) (Tabela 3). A legislação brasileira não faz referência quanto ao valor de lipídios na farinha de mandioca, sendo que o seu teor está relacionado com as características intrínsecas do produto.

O grupo V, constituído somente pelo tratamento 3, apresentou características também consideradas adequadas para a farinha de mandioca de alta qualidade, principalmente, por apresentar o menor teor de umidade (8,10%) e o maior teor de carboidratos (88,36%) em relação aos demais grupos (Tabela 3).

O maior teor de carboidratos deste grupo pode estar relacionado com o menor teor de fibras (1,60%), também encontrado na farinha deste grupo (Tabela 3). Do mesmo modo, no grupo II, o maior teor de fibras estα associado ao menor teor de carboidratos encontrado.

Dentre as características analisadas, a acidez destaca-se como uma das mais importantes, estando relacionada com o processo de fabricação da farinha de mandioca, sugerindo a influência do tempo de fermentação da massa de mandioca triturada ou do tempo de prensagem. Dias e Leonel (2006) citam que acidez elevada pode ser indicativo de falta de higiene nas operações de processamento, o que é uma característica de processos artesanais. A exposição prolongada da massa de mandioca à temperatura ambiente elevada e o aumento no tempo de fermentação favorece, conseqüentemente, o aumento na acidez. No grupo V, composto pelo tratamento 3, a farinha analisada teve o maior valor de acidez dentre as demais (2,89 meq NaOH.100 g–1).

Com base na matriz de distância Euclidiana média padronizada, gerou-se um dendrograma para formação dos grupos de acordo com o método do vizinho mais próximo (Figura 1).

Considerando-se uma distância de 60% no dendrograma, com base nas características avaliadas (Figura 1), verifica-se a formação de seis grupos. De acordo com este dendrograma, o grupo 1, reúne os tratamentos 8, 14, 16, 10, 17, 12, 18, 4, 3, 5 e 2. O grupo 2, os tratamentos 13, 15 e 11. Os grupos III, IV, V e VI os tratamentos 9, 1, 6 e 7, respectivamente. A divergência entre eles mostra a ampla variabilidade nas farinhas produzidas na região. Portanto, pode-se considerar que, de um modo geral, os dois métodos de aglomeração fundamentados em dados físico-químicos foram coerentes na formação dos grupos de produtores de farinhas de mandioca coletadas no município de Cruzeiro do Sul.

Observa-se, pela formação dos grupos, que a variabilidade das farinhas não está representada pela variedade ou local de produção, já que não foram classificadas no mesmo grupo. A variabilidade pode estar relacionada principalmente pelo processo de fabricação, como citado por Lima (1982), podendo esta heterogeneidade ser encontrada em farinhas de um mesmo produtor.

A técnica de análise multivariada tem a vantagem, em relação aos métodos de análise univariada, de avaliar a importância de cada característica estudada sobre a variação total disponível entre os tratamentos avaliados, possibilitando o descarte dos caracteres menos discriminantes, por já estarem correlacionados com outras variáveis redundantes ou pela sua invariância.

Na Tabela 4, constam as contribuições relativas das variáveis para o estudo da variabilidade da farinha produzida. Carboidratos totais e umidade foram as variáveis que mais contribuíram para a variabilidade das farinhas de mandioca comercializadas no município, representando 78,55% da variação total. Cinzas e pH foram as características de menor importância, provavelmente devido a sua menor invariância em relação às demais características avaliadas. Quanto à umidade, o processamento artesanal da farinha de mandioca sem o controle da temperatura de torração implica em variabilidade nesta característica encontrada nas amostras analisadas.

4 Conclusões

As variáveis carboidratos totais, umidade, lipídios, proteína bruta, fibra bruta, acidez, cinzas e pH mostram-se eficazes para avaliar a variabilidade das farinhas de mandioca;

A obtenção de grupos distintos indica presença de variabilidade na qualidade das farinhas estudadas;

A farinha peneirada, tratamento T3, produzida na comunidade Alto Pentecostes, procedente da variedade Caboquinha e a farinha do tratamento T7, produzida no Ramal da Macaxeira, proveniente da variedade Mansa e Brava, são consideradas as de melhor qualidade;

As variáveis carboidrato e umidade apresentam maior importância relativa no estudo da variabilidade físico-química de farinha de mandioca; e

As técnicas multivariadas de agrupamento são coerentes na identificação de grupos de similaridade entre as farinhas de mandioca.

Agradecimentos

Aos produtores da região de Cruzeiro do Sul – Acre, pela doação da farinha de mandioca e à FINEP pelos recursos financeiros.

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Recebido para publicação em 16/7/2007
Aceito para publicação em 22/1/2008 (002680)


* A quem a correspondência deve ser enviada

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17 de janeiro de 2009
Intervenção psicológica em abrigo para mulheres em situação de violência: uma experiência
Psicologia: Teoria e Pesquisa v.24 n.3 Brasília ju./set. 2008

Madge Porto2

Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal do Acre, Faculdade da Amazônia Ocidental e Conselho Regional de Psicologia 1ª Regição Seção Acre


RESUMO

O objetivo deste artigo é descrever a trajetória da reconstrução da proposta de intervenção psicológica em um abrigo para mulheres em situação de violência intrafamiliar e de gênero. O trabalho iniciou-se com o estabelecimento de encontros de supervisão, no formato de intercontrole, do Serviço de Psicologia. Durante esses encontros, houve uma avaliação das atribuições funcionais, que davam referência ao trabalho até então realizado, e o estabelecimento de uma nova proposta de intervenção. A nova proposta tem como referência principal a necessidade de pensar uma intervenção psicológica em um contexto institucional, considerando a temática do enfrentamento da violência contra a mulher.

Palavras-chave: intervenção psicológica; gênero; violência contra mulher; abrigo temporário.


ABSTRACT

The aim of the present paper is to describe the reconstructing of psychological intervention in a shelter for women in situations of intrafamilial and gender violence. This work began with the establishment of clinical supervision meetings, in the format of Psychological Service Intercontrol. During such meetings, there was an evaluation of the functional attributes regarding the work carried out up to that point, and the establishment of a new intervention proposal. The main reference of the new proposal is the need for psychological intervention in the institutional context, considering the issue of confronting violence against women.

Key words: psychological intervention; gender; violence against women; temporary shelter.


Este artigo tem por objetivo relatar a experiência profissional de psicólogas no âmbito de uma instituição pública. Será apresentado o processo de mudança nas referências da intervenção psicológica realizada em uma instituição governamental - Casa Abrigo Mãe da Mata do Governo do Estado do Acre, cuja missão é abrigar mulheres em situação de violência intrafamiliar e de gênero juntamente com seus filhos e filhas por um período máximo de 90 dias. Durante esse período, o abrigo oferece proteção e oportunidade para que elas reflitam sobre a vida em situação de violência, assim como as formas de enfrentar essa situação. Na seqüência, serão relatadas as mudanças realizadas nas atribuições do Serviço de Psicologia do abrigo. Para fundamentar a nova proposta, foram feitas discussões sobre as bases que sustentavam a proposta inicial, os resultados obtidos até então e sobre os textos de Severo (1993) e da Secretaria de Políticas para as Mulheres (Brasil, 2003), com o objetivo de promover mudanças na prática institucional.

A principal motivação para escrever este texto foi a constatação da falta de referências para estruturar um serviço de psicologia no contexto de violência contra a mulher. Na época que iniciamos o trabalho, não encontramos textos que apresentassem propostas para a implementação de um serviço de psicologia numa casa abrigo para mulheres. Assim, pensamos que a apresentação de nossa experiência poderá ajudar psicólogas que estejam iniciando um trabalho num abrigo desse tipo.

O atendimento psicológico e as políticas públicas para as mulheres

O atendimento psicológico aparece como uma das intervenções relevantes nas políticas públicas de enfrentamento da violência contra a mulher (Brasil, 2003). Existe uma preocupação de garantir à mulher um acolhimento especializado, de forma que não apenas receba a mulher, mas também a ajude a mudar sua vida. (Brasil, 2003; Soares, 2005). Os aspectos psicológicos ganham destaque também diante da queixa recorrente nos serviços especializados de atendimento às mulheres que vivem em situação de violência - delegacias especializadas, casas-abrigo, centros de referência e unidades de saúde - de que a intervenção é difícil ou o atendimento é inútil (Brandão, 1998; Franco, 2002; Meneghel & cols., 2000; Porto, 2006). Isso porque as mulheres negam a violência, apesar dos sintomas, desistem de prosseguir na responsabilização do agressor ou porque reclamam da situação que vivem e continuam no relacionamento. Assim, há uma expectativa de que a psicologia tem como dar respostas a essas questões.

O feminismo, como referência política e teórica para a organização das mulheres, promoveu uma significativa transformação na compreensão das relações humanas e da organização econômica, política e social do mundo (Pinto, 2003). A trajetória do movimento feminista promoveu a construção de políticas de inclusão e valorização das mulheres, culminando no início do século XXI, no Brasil, com a criação da Secretaria Especial de Política para as Mulheres - SPM, a realização das I e II Conferências Nacionais de Política para as Mulheres e, por fim, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres - fruto da primeira conferência, que é o documento básico para a implementação das políticas específicas para as mulheres. A SPM está vinculada à Presidência da República, tem status de ministério e possui um orçamento definido (Brasil, 2004). O plano apresenta, como estratégia de proteção às mulheres e consolidação das políticas públicas de enfrentamento à violência, o estabelecimento de redes de cidadania e parcerias. Todavia, já em 2003, um documento elaborado pela SPM apresenta um protocolo de intervenção, entre outros documentos de referência, que orienta e espera que as cuidadoras - trabalhadoras que atendem as mulheres em situação de violência - compreendam as relações de gênero e a violência como um fenômeno relacional. Aponta como ação ideal a abordagem integral, aliando a reestruturação de condições materiais à reestruturação afetiva, emocional e de fortalecimento da condição de cidadania das mulheres. Também destaca a necessidade do conhecimento e manejo dos aspectos cíclicos do processo de violência, de modo que estabeleça mudanças nas construções sociais de identidades e subjetividades, a partir de uma escuta não julgadora.

Outras publicações também apresentam este tipo de demanda, as mais recentes são Soares (2005), Brasil (2006b) e Taquette (2007). Para o desenvolvimento de tal intervenção, a estratégia apresentada consiste de: intervenção em equipe multiprofissional, tendo como referência a interdisciplinaridade para a assistência integral; constituição de redes de parceria; abordagem de grupo e crítica às questões de gênero e da violência contra a mulher (Brasil, 2003). Contudo, não há especificações para a realização do atendimento psicológico nesse contexto e a intervenção a ser realizada é apresentada de forma superficial. Parece haver o entendimento de que a formação em psicologia em si garantiria a realização dessas demandas.

Violência e saúde mental

Pensar sobre a relação entre a subjetividade e a violência contra as mulheres ainda gera desconforto. As discussões sociológicas apresentam a categoria gênero como explicativa das causas da violência em contraposição às explicações que argumentam a violência como uma patologia mental do agressor ou da vítima. Desse modo, defendem uma forma de responsabilização dos homens autores de violência.

[...] a violência [...] tinha a ver com a discriminação e a submissão das mulheres. [...] Nós em nenhum momento admitimos nenhuma atenção, mais técnica ou um pronto atendimento psicológico, advogado, assistente, para nós isso [...] não tinha nada a ver com a nossa proposta feminista (Diniz, 2006, p. 18, grifo nosso).

Todavia, dentro do próprio movimento, começa a aparecer uma reflexão em que a vitimização começa a ser relativizada. Por exemplo, para Saffioti (2004, p. 125), "[...] o gênero não é tão somente social, dele participando também o corpo, quer como mão-de-obra, quer como objeto sexual, quer, ainda, como reprodutor de seres humanos". A autora refere, ainda, "[...] que se considera errôneo não enxergar no patriarcado uma relação, na qual, obviamente, atuam as duas partes. Tampouco se considera correta a interpretação de que sob a ordem patriarcal de gênero as mulheres não detêm nenhum poder" (Saffioti, 2004, p. 118).

Nesse processo de reformulação, reflexão, inclusive das próprias experiências pensadas ao longo da trajetória feminista, os aspectos referentes à saúde mental começam a ter um espaço entre as próprias feministas, em muitos casos, também psicólogas. Francisquetti (2005) refere que "a existência do inconsciente torna a idéia de violência mais complexa, pois ela pode partir daí - de um outro dentro de nós mesmos. Podemos ser violentos contra nós mesmos ou contra nosso semelhante" (p. 2). Mirim (2006) apresenta um balanço sobre o enfrentamento da violência contra as mulheres do ponto de vista da saúde mental como elemento não só de tipificação da violência - violência psicológica - ou de suas conseqüências. A autora dá um lugar para a subjetividade das mulheres em situação de violência, ou seja, inclui o mundo subjetivo, não necessariamente patológico, como elemento constituinte das experiências de violência de gênero.

O atendimento psicológico no contexto da violência contra a mulher

Durante o processo de construção das políticas para as mulheres em situação de violência, conduzido pelo movimento feminista, a intervenção em psicologia foi se constituindo como relevante (Brasil, 2003; Brasil, 2006a e Brasil, 2006b). A subjetividade dessas mulheres passou a ter um lugar mais importante, mesmo que ainda de forma não explícita, e o atendimento psicológico, por conseqüência, também. As tentativas de explicar as causas da violência contra as mulheres, a partir da categoria gênero, não se apresentam como suficientes para explicar por que mulheres que construíram seu referencial de papéis e relações de gênero numa mesma cultura agem de forma diferenciada no que se refere à experiência de viver este tipo de violência. Mesmo quando há a referência de que: "mulheres que suportam violência de seus companheiros são co-dependentes da compulsão do macho e o relacionamento de ambos é fixado, na medida em que se torna necessário. Neste sentido, é a própria violência, inseparável da relação, que é necessária" (Saffioti, 2004, p. 84).

Algumas experiências de atendimento em saúde mental às mulheres em situação de violência mostram as potencialidades do trabalho com o psiquismo. Deparar-se com a ambigüidade da mulher com relação ao agressor e até a si mesma, faz com que se perceba que a violência contra as mulheres se dá em um "[...] contexto complexo, onde estão em jogo, atravessando as pessoas em cena, a realidade externa, a cultura, os fluxos, as forças inconscientes, fantasias, traumas, desejos de vida, desejos de destruição - morte" (Francisquetti, 2005, p. 2).

A Casa Abrigo Mãe da Mata - CAMM

A Casa Abrigo Mãe da Mata (CAMM) é um espaço criado no ano de 2000 pelo Governo do Estado do Acre, com apoio do Ministério da Justiça e Fundação Banco do Brasil, está vinculada à Gerência de Eqüidade de Gênero da Secretaria de Estado de Cidadania e Assistência Social (SECIAS) e tem como objetivo o abrigamento temporário de mulheres e seus filhos menores de 12 anos em situação de violência e/ou em iminente risco de morte (Acre, 2000). A partir de 2001, a CAMM começou a receber as primeiras abrigadas.

A escolha do nome do abrigo baseou-se na lenda da Mãe da Mata, uma sábia senhora que, para os povos da Amazônia, cumpre o papel de ser uma grande protetora e defensora da floresta. Segundo a lenda, essa entidade mitológica pune com rigor aqueles que ousam agredir a floresta e seus habitantes, dessa forma, preservando o seu equilíbrio.

O imóvel foi construído com a finalidade de ser um abrigo e foi projetado com dimensões adequadas para o alojamento de 30 pessoas, entre mulheres, crianças e/ou adolescentes. Está localizado em um bairro residencial de Rio Branco e tem seu endereço mantido sob sigilo. A CAMM funciona 24 horas, com plantões de 12 horas de vigias e monitoras, incluindo sábados, domingos e feriados, e regime de 40 ou 30 horas semanais para os demais cargos. As mulheres chegam à CAMM encaminhadas principalmente pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) e pela SECIAS. A equipe é composta por: uma gerente administrativa, uma assistente social, três servidoras de apoio à assistente social, uma psicóloga, três educadoras, uma digitadora, uma instrutora de curso profissionalizante, cinco monitoras, quatro vigias, duas cozinheiras, uma auxiliar de cozinha, quatro zeladoras e um motorista Além dos serviços prestados por esses profissionais, existe uma rede de parceiros da área social, médica e jurídica como postos de saúde, hospitais (geral e de saúde mental), Defensoria Pública, centro de referência, Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Sistema Nacional de Empregos (SINE) e Fundação de Bem-Estar Social do Acre (FUNBESA), que possibilitam o acesso à justiça, à promoção e inserção profissional, à educação e à promoção da saúde física e mental das mulheres e crianças e/ou adolescentes abrigados. Por fim, entre 2001 e 2005, existiram 1.426 abrigamentos.

O serviço de psicologia da CAMM

O trabalho realizado na SECIAS, capacitação da equipe técnica e de apoio, desde 2003, possibilitou o conhecimento da história da estruturação da CAMM, por meio de depoimentos e documentos, assim como a implementação da proposta de supervisão no formato de intercontrole.

Desde o início do funcionamento da CAMM, várias psicólogas passaram pelo Serviço de Psicologia e, em alguns momentos, esse serviço não foi oferecido. Essa rotatividade, que existe em todas as funções da CAMM e da SECIAS, é conseqüência da falta de servidores concursados e os profissionais que trabalham nesses órgãos são, na maioria, trabalhadores com contratos temporários. Outro aspecto importante é a falta do profissional de psicologia, pois o primeiro curso de graduação em Psicologia do estado só iniciou em 2006. Isso significava, quase sempre, demora na substituição da profissional. A ausência e/ou rotatividade das psicólogas na CAMM foi relatada pelas servidoras, nos momentos de capacitação da equipe, como um elemento limitador no processo de implementação do serviço, pois a elas cabia o papel de "conversar" e de ser "legal", por ouvir os problemas e dar "conselhos" tanto para as abrigadas como para a equipe. Também foi percebido um sentimento de insegurança vivenciado pela equipe no ciclo de vínculos e separações que causou desânimo e desvalorização profissional. Nesse contexto, algumas questões destacaram-se, como: expectativas difíceis de serem realizadas, como o atendimento às mulheres abrigadas e à equipe, ao mesmo tempo, pela mesma psicóloga; e uma valorização do atendimento clínico individual, ou seja, a psicóloga só trabalharia como psicóloga quando atendendo cada um que a procurasse para "conversar" na sala de psicologia. Não eram considerados, segundo as falas dessas servidoras, os estudos de caso como uma atividade da psicóloga, por exemplo. Havia, ainda, mitos e rótulos como "aquela que dá conselhos", "sabe tudo", e "aquela que apóia em todas as horas ", como mencionaram em algumas capacitações.

Duas psicólogas, um desafio: as estratégias do intercontrole

No processo de capacitação continuada da equipe multiprofissional da CAMM, realizado por mim, que era uma das integrantes da equipe da Gerência de Eqüidade de Gênero da SECIAS, foi identificada a necessidade de iniciar um trabalho de supervisão clínica do atendimento psicológico, pois a psicóloga do abrigo solicitou um acompanhamento sistemático das atividades desenvolvidas, em especial, o atendimento às mulheres abrigadas na CAMM. Assim, com essa demanda, o acompanhamento foi estruturado no formato de intercontrole do Serviço de Psicologia. Isso porque o estabelecimento de uma supervisão clínica tradicional não seria recomendado, pois eu também fazia parte da equipe que trabalhava para o desenvolvimento dos objetivos da CAMM. Contudo, eu era lotada no prédio da SECIAS, e não dentro do abrigo, como ficava a psicóloga que realizava os atendimentos às mulheres.

O trabalho iniciou com a reflexão sobre a prática da intervenção psicológica, até então realizada com base nas atribuições funcionais pré-estabelecidas para o Serviço de Psicologia (Acre, 2001). Os encontros de Intercontrole foram estabelecidos inicialmente com uma freqüência quinzenal, mas as demandas exigiram mais urgência e constância. Assim, optou-se por encontros semanais de duas horas de duração com registro escrito dos assuntos tratados e produção de relatório de atividades. O desafio que se apresentava era: como delimitar os papéis, assumir novas formas de atuar baseadas numa intervenção psicológica mediada por uma instituição que abriga mulheres em situação de violência e deixar de ser a responsável por outras atividades que não eram específicas da Psicologia?

Nesse processo, considerando-se as atribuições definidas para o Serviço de Psicologia (Acre, 2001), perceberam-se dificuldades e limitações para a realização do trabalho. Com base numa literatura de apoio nas áreas de psicologia institucional, feminismo e gênero (Severo, 1993; Brasil, 2003) e na própria experiência de atendimento no abrigo, foi realizada uma análise de cada atividade atribuída à psicóloga no abrigo (Acre, 2001). Para um melhor entendimento, descreveremos abaixo as atribuições definidas para o serviço de psicologia (Acre, 2001) e as respectivas análises que foram realizadas nos encontros de Intercontrole:

1. Apoio imediato às abrigadas. Esta atribuição pressupõe que a intervenção psicológica deve ser emergencial para ser eficaz e promover a resolução do caso. Contudo, o serviço de Psicologia funciona apenas durante um horário (manhã ou tarde). Assim, funcionando a CAMM diuturnamente, não era possível um atendimento imediato, mas apenas nos horários de trabalho da psicóloga;

2. Suprir as necessidades psicológicas da equipe. Com base na concepção socio-histórica da Psicologia e nos fundamentos da psicologia institucional, essa atribuição foi considerada um duplo equívoco. Primeiro, porque um psicólogo não "supre" as necessidades psicológicas de seus clientes/pacientes; e, segundo, porque as clientes/usuárias do serviço de uma casa-abrigo para mulheres em situação de violência deveriam ser as mulheres abrigadas, e não a equipe. Por fazer parte da equipe do abrigo, ficou entendido que era inviável o trabalho de intervenção psicológica a essa mesma equipe e, por isso mesmo, a intervenção teria como objetivo trabalhar a subjetividade no sentido de restabelecer o equilíbrio emocional das mulheres abrigadas;

3. Facilitar o processo de socialização equipe/abrigadas e intermediar as relações interpessoais. Mais uma vez, a equipe é apontada como objeto de intervenção da psicóloga, como se, para o Serviço de Psicologia, a clientela do abrigo e a equipe que lá trabalha ocupassem o mesmo lugar e a psicóloga outro lugar diferente dos citados. Nesse ponto, foi considerado que a psicóloga faz parte da equipe e, nessa condição, como qualquer outro membro da equipe, teria um papel de facilitadora do contato entre a abrigada e a equipe do abrigo quando fosse ela quem recebesse/acolhesse inicialmente a abrigada;

4. Colaborar com os demais setores. Nesta atribuição fica explícita a visão do psicólogo como aquele que pode "ajudar em tudo" e "resolver os problemas" de todos. Não há especificação do tipo de colaboração esperada, o que deixa lacunas para expectativas que extrapolam a atuação do profissional em psicologia, como ajudar na parte administrativa e nos encaminhamentos do Serviço Social, para citar dois exemplos;

5. Estudo apurado dos casos (conflitos/necessidades). Esse item foi considerado de extrema importância, já que o estudo de caso é uma atividade fundamental para uma intervenção de qualidade. A explicitação dessa atribuição é muito positiva, pois significa considerar que a intervenção psicológica é mais ampla que o atendimento propriamente dito; e, por fim,

6. Foco do trabalho psicossocial com as abrigadas e filhos. Esse item é o que explicita o foco da intervenção, as mulheres e as crianças que as acompanham e delimita o trabalho no campo psicossocial. Contudo, no conjunto das atribuições, entra em conflito com o item nº 2 (Suprir as necessidades psicológicas da equipe).

Por conseqüência, depois de toda uma discussão, tendo como referência os pressupostos teóricos citados ao longo deste artigo e identificando uma mistura nas atribuições colocadas para a psicóloga - atender às mulheres abrigadas e à equipe -, começou-se a avaliar a necessidade e viabilidade de redefinição dessas atribuições, principalmente porque a psicóloga do abrigo mostrava-se confusa quanto ao trabalho que precisava desenvolver. Ao mesmo tempo, havia uma demanda significativa da equipe, e até mesmo de seus familiares, pelo atendimento psicológico, o que acarretava prejuízos ao atendimento das mulheres abrigadas, já que o foco do trabalho ficaria desviado.

Por fim, identificamos também a descontextualização do atendimento, ou seja, a referência ao atendimento psicológico desvinculado dos pressupostos feministas e dos conceitos de gênero que dão suporte a essa política pública de enfrentamento da violência contra a mulher. A análise das atribuições existentes, a referência na base teórica das políticas para as mulheres e a experiência desenvolvida a partir dos questionamentos apresentados anteriormente, subsidiaram a definição das novas atribuições do serviço, que foram: 1) Atender as mulheres abrigadas em Grupo Reflexivo; 2) Realizar atendimento individual às mulheres que apresentarem essa necessidade; 3) Atender às crianças e adolescentes em grupos; 4) Encaminhar para atendimento psicológico clínico os membros da equipe (e seus familiares) quando houver solicitação; 5) Participar das reuniões de estudo de caso da equipe multiprofissional; 6) Participar dos encontros de intercontrole - supervisão clínica do atendimento psicológico; 7) Realizar o registro dos atendimentos nas pastas das abrigadas (arquivo dos atendimentos), preservando o sigilo profissional e demais questões éticas (Código de Ética do Profissional de Psicologia); 8) Elaborar relatórios mensais dos atendimentos realizados; 9) Participar do plantão de sobreaviso; e 10) Participar da capacitação continuada da equipe multiprofissional (cujas temáticas eram gênero, violência contra a mulher, direitos humanos das mulheres, políticas públicas para as mulheres).

O objetivo seria estabelecer uma referência para o trabalho em psicologia que considerasse a intermediação institucional e o contexto da mulher que vive em situação de violência, cujos fundamentos sociais e culturais são muito fortes. Com base no referencial teórico do feminismo e da categoria de análise gênero, nos quais a política pública do abrigamento está ancorada, seria importante instituir um espaço de atendimento psicológico para a escuta e a reflexão, e que não tivesse como papel principal realizar o tratamento de transtornos psicológicos. Isso também porque o tempo máximo de permanência no abrigo não ultrapassaria três meses, salvo algumas exceções. Nesse contexto, avaliamos que uma intervenção clínica institucional seria mais adequada que uma intervenção baseada na clínica tradicional, como defende Severo (1993).

Resultados Iniciais

Os resultados aqui apresentados precisam ser avaliados no contexto de uma descrição de experiência profissional. Dessa forma, avaliamos que as mudanças ocorridas trouxeram uma maior organização ao atendimento em psicologia e uma delimitação do papel da psicóloga no abrigo, como foi relatado pelas mulheres abrigadas e pela equipe, respectivamente, nos atendimentos em grupo e nas reuniões de equipe. Todavia, considerando que se trata de um processo contínuo e dinâmico, sujeito a ajustes ao longo do tempo, apresentaremos como resultados o que foi identificado na construção dessa proposta.

A proposta de formar um grupo reflexivo foi bem aceita pelas abrigadas. Elas o nomearam: Grupo Mulheres Unidas para Vencer. Nele, foram trabalhados temas como: relações de gênero, violência contra a mulher, auto-estima, planos para o futuro, relacionamento com os filhos, trabalho, entre outros. Com relação às técnicas utilizadas, destacamos as dinâmicas de grupo, leitura de textos, debates livres e desenhos. Para a operacionalização das novas atribuições da psicóloga, optouse por fazer um quadro de horários, organizando todas as atividades que seriam realizadas por ela. O modelo adotado foi o sugerido por Severo (1993), que destaca o planejamento das atividades, o atendimento em grupo e o estabelecimento de um tempo para os registros dos atendimentos realizados. Cada abrigada tinha uma pasta (arquivo) em que constava, entre outras, a ficha de Atendimento Psicológico. Na ficha, eram realizadas as anotações sobre as temáticas trabalhadas em grupo e as respectivas datas, bem como os atendimentos individuais. Eram registros sucintos, por exemplo, se em um atendimento individual a abrigada relatava como tinha sido seu relacionamento com seus pais, anotava-se na ficha que o tema trabalhado tinha sido "relacionamentos familiares" sem outras informações a respeito. Para o mesmo atendimento, outras informações mais específicas e que precisam ser mantidas sob sigilo, são anotadas em documento de uso exclusivo da psicóloga. Um relatório mensal dos atendimentos psicológicos realizados era entregue à gerência da CAMM, no qual constava o número de atendimentos realizados (em grupo e individual), as participações nas capacitações, intercontrole, fóruns e seminários, reuniões; os encaminhamentos realizados; os contatos com demais profissionais e outras informações julgadas pertinentes.

Em uma avaliação realizada no encontro de encerramento das atividades daquele ano (antes do recesso do fim do ano), foi possível perceber que a proposta de atendimento, fundada na intervenção psicológica mediada pela instituição e considerando o contexto da violência contra a mulher, apontava para resultados mais positivos. Dessa maneira, segundo as mulheres abrigadas, o grupo proporcionava momentos de reflexão sobre suas vidas e sobre a violência sofrida, o fortalecimento da auto-estima e autonomia. Esses resultados são semelhantes aos encontrados por Moreira (1999) em uma pesquisa cujo objetivo era comprovar a indicação do atendimento em grupo como "(...) modalidade de intervenção psicológica" (Moreira, 1999, p. 61) mais adequada nos casos de violência intrafamiliar contra a mulher. Esse estudo também destacou que os conteúdos que emergem dos grupos são basicamente aqueles relacionados à violência e às estratégias de superação dessa situação. Com base no texto de Neves e Nogueira (2003), que apresenta a reflexividade como um instrumento que promove a crítica e defende que, no campo das práticas terapêuticas dirigidas às mulheres, faz-se necessária a criação de "(...) práticas terapêuticas alternativas na Psicologia" (Neves & Nogueira, 2003, p. 52), consideramos que o trabalho em grupo reflexivo com as Mulheres Unidas para Vencer foi um avanço. Isso porque, após o início do atendimento, com o novo modelo, houve um aumento da demanda por parte das mulheres abrigadas, que foi constatado com o aumento da procura pelo serviço. Tornaram-se freqüentes os pedidos verbais por atendimento ou, de forma indireta, os "passeios pelo corredor" - numa forma de tentar disfarçar a busca direta pelo atendimento - que terminavam na sala de atendimento da psicóloga para informações, atendimento individual e par-ticipação no grupo reflexivo.

Por fim, a experiência dos encontros de Intercontrole foi ampliada, ou seja, deixou de ser uma atividade apenas da psicóloga da CAMM para se tornar uma atividade da rede de enfrentamento da violência contra a mulher em Rio Branco. Nesse novo formato, foi nomeada Roda de Conversa em Psicologia. Trata-se de uma supervisão clínica no formato de intercontrole entre as psicólogas que trabalham nas instituições de atendimento que formam essa rede, composta pela Casa Abrigo Mãe da Mata, o Centro de Referência, a DEAM, a maternidade pública, unidades de saúde, entre outros. Nesse espaço, queremos, como nos aponta Machado (2004), discutir e dividir as dificuldades teóricas, técnicas e emocionais na intervenção com as mulheres vítimas de violência. É uma tentativa de estabelecer uma estratégia protetora das conseqüências da intervenção terapêutica nesse contexto específico.

Considerações Finais

Escrever este artigo, relatando nossa experiência, faz parte da estratégia pensada para o desenvolvimento de um novo caminho para o atendimento psicológico em instituições públicas no Estado do Acre, e também uma iniciativa de apresentar uma referência para aqueles que precisam iniciar um trabalho semelhante. As dificuldades do Serviço de Psicologia eram percebidas da forma como estavam estabelecidas, uma definição ambígua do papel do psicólogo, o que provocava a demanda da profissional para outros serviços e as expectativas difíceis de serem realizadas, até mesmo incompatíveis como a intervenção em psicologia - "suprir as necessidades psicológicas". Depois dessa avaliação, definimos uma proposta de intervenção e, mesmo sentindo a resistência, seguimos adiante. Precisávamos criar uma nova proposta, uma nova intervenção, principalmente porque compreendemos que a violência contra a mulher é fruto de relações de gênero desiguais que foram construídas histórica e culturalmente (Saffioti, 2004). Assim, não poderíamos reduzir nossa intervenção, ou seja, não poderíamos psicologizar o problema. Precisávamos ousar, pois tínhamos uma nova realidade e um modelo de intervenção que não dava repostas satisfatórias. Por conseqüência, precisávamos bus-car instrumentos, teorias e técnicas que nos possibilitassem questionar o que estava estabelecido e propor uma prática nova. Assim fizemos. Ainda estamos estudando, perguntando, enfim, construindo e esse processo convém apresentarmos agora para um debate mais amplo.

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25 de dezembro de 2008
Erros de administração de antimicrobianos identificados em estudo multicêntrico brasileiro

Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas

ISSN 1516-9332 versão impressa

Rev. Bras. Cienc. Farm. v.44 n.2 São Paulo abr./jun. 2008

doi: 10.1590/S1516-93322008000200016

Erros de administração de antimicrobianos identificados em estudo multicêntrico brasileiro

Antimicrobial drug administration errors identified in Brazilian multicentric study

Tatiane Cristina MarquesI,*; Adriano Max Moreira ReisI,II; Ana Elisa Bauer de Camargo SilvaI,III; Fernanda Raphael Escobar GimenesI,IV; Simone Perufo OpitzV; Thalyta Cardoso Alux TeixeiraI; Rhanna Emanuela Fontenele LimaI; Silvia Helena De Bortoli CassianiI

IDepartamento de Enfermagem Geral e Especializada, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo
IIDepartamento de Produtos Farmacêuticos, Faculdade de Farmácia, Universidade Federal de Minas Gerais
IIIFaculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Goiás
IVCurso de Enfermagem, Universidade Camilo Castelo Branco
VDepartamento de Ciências da Saúde e do Desporto, Universidade Federal do Acre


RESUMO

Erros de administração de antimicrobianos são relevantes, pois podem interferir na segurança do paciente e no desenvolvimento de resistência microbiana. O objetivo desse estudo foi identificar os antimicrobianos associados a erros de administração de medicamentos. Estudo multicêntrico, descritivo e exploratório, realizado em unidades de clínica médica de cinco hospitais por meio de técnica observacional, durante 30 dias. Os erros foram classificados em categorias: dose, medicamento não prescrito, via, paciente e horário. A classificação farmacológica dos antimicrobianos foi realizada segundo o Sistema Anatômico Terapêutico Químico (ATC). Os fármacos de intervalo terapêutico estreito foram identificados. A análise estatística descritiva foi realizada no software SPSS 11.5. Foram identificados 1500 erros, sendo 277 (18,5%) com antimicrobianos. Os tipos de erros foram: de horário 87,7%; de dose 6,9%; de medicamento não autorizado 3,2%, de via 1,5% e de paciente 0,7%. Foram identificados 36 antimicrobianos e as classes ATC mais freqüentes foram: fluorquinolonas 13,9%, combinações de penicilinas 13,9%, macrolídeos 8,3% e cefalosporina de terceira geração 5,6%. Os fármacos de intervalo terapêutico estreito corresponderam a 16,7% dos antimicrobianos. Os erros com antimicrobianos analisados podem ser fontes de estudo e melhoria no processo de utilização racional de medicamentos e segurança do paciente.

Unitermos: Medicação/erros de administração. Agentes antimicrobianos/ erros de administração. Sistema de medicação hospitalar


ABSTRACT

Medication administration errors (MAE) are the most frequent kind of medication errors. Errors with antimicrobial drugs (AD) are relevant because they may interfere in patient safety and in the development of microbial resistance. The aim of this study is to analyze the AD errors detected in a Brazilian multicentric study of MAE. It was a descriptive and exploratory study carried out in clinical units in five Brazilian teaching hospitals. The hospitals were investigated during 30 days. MAE were detected by observation technique. MAE were classified in categories: wrong route(WR), wrong patient(WP), wrong dose(WD) wrong time (WT) and unordered drug (UD). AD with MAE were classified by Anatomical-Therapeutical-Chemical Classification System. AD with narrow therapeutic index (NTI) were identified. A descriptive statistical analysis was performed using SPSS version 11.5 software. A total of 1500 errors were observed, 277 (18.5%) of them were errors with AD. The types of AD error were: WT 87.7%, WD 6.9%, WR 1.5%, UD 3.2% and WP 0.7%. The number of AD found was 36. The mostly ATC class were fluoroquinolones 13.9%, combinations of penicillin 13.9%, macrolides 8.3% and third-generation cephalosporins 5.6%. The parenteral drug dosage form was associated with 55.6% of AD. 16.7% of AD were NTI. 47.4% of WD and 21.8% WT were with NTI drugs. This study shows that these errors should be considered potential areas for improvement in the medication process and patient safety plus there is requirement to develop rational drug use of AD.

Uniterms: Medication/administration errors. Antimicrobial drugs/administration errors. Medication systems hospital.


INTRODUÇÃO

Atualmente, a segurança do paciente é uma das prioridades dos serviços de saúde e compreende um conjunto de iniciativas para instituir sistemas e processos operacionais com o objetivo de evitar, prevenir e reduzir eventos adversos ocorridos a partir da assistência prestada (Manasse Junior, Thompson, 2005). Diante da magnitude do problema dos eventos adversos na assistência à saúde, em especial os erros de medicação, a Organização Mundial de Saúde criou, em 2002, a World Alliance for Patienty Safety. Essa iniciativa visa a incentivar os países a implementarem e monitorarem ações direcionadas à segurança do paciente (Donaldson, Fletcher, 2006).

Os erros de medicação comprometem a segurança do paciente e a qualidade do cuidado. Dentre as conseqüências desses eventos, podem-se destacar: aumento da morbimortalidade relacionada aos medicamentos, prolongamento do tempo de internação e elevação significativa dos custos assistenciais (Bates et al., 1995). Os custos para o sistema americano de saúde, devidos à morbidade e à mortalidade relacionada aos medicamentos, ultrapassam 177 bilhões de dólares por ano desde o ano 2000 (Ernst, Grizzle, 2001; Manasse Junior, Thompson, 2005).

Os fatores que aumentam o potencial para erros de medicação são múltiplos: falta de profissionais de saúde; excesso de trabalho; carga horária pesada; maior número de pacientes exigindo cuidados de alta complexidade e com polifarmacoterapia; crescimento no número, variedade e potencial de toxicidade dos medicamentos; complexidade tecnológica para o cuidado e o aumento da pressão para reduzir custos e aumentar resultados (Hatcher et al., 2004; Miasso et al., 2006). Profissionais de saúde, mesmo altamente capacitados e experientes, quando expostos a ambientes de trabalho com estas características, podem cometer erros devidos a tais fatores sistêmicos.

O sistema de utilização de medicamentos engloba vários processos interligados e interdependentes, envolvendo multiplicidade de planejamento e implementação de ações pela equipe de saúde e gerando um contexto entrelaçado de situações que podem ser facilitadoras para ocorrência de um erro (Ackroyd-Stolarz, Hartnell, MacKinnon, 2005; Dang et al., 2007). A incidência de erro de medicação é diferenciada ao longo de toda a cadeia de utilização. Estudo realizado por Koop et al. (2006) identificou que de um total de 132 erros de medicação, 36% ocorreram na fase de prescrição, 32% na administração, 28% na dispensação e 4% na transcrição dos medicamentos prescritos.

Recentemente, os erros de medicação, assim como o uso inadequado de medicamentos, passaram a ser considerados um problema de saúde pública em função do impacto assistencial e da elevada incidência nos serviços de saúde (Manasse Junior, Thompson, 2005). A dimensão do problema fica bem caracterizada por estudos epidemiológicos divulgados pelo Institute of Medicine, que estimam que cada paciente internado em hospitais norte-americanos esteja sujeito a um erro de medicação por dia, e que, anualmente, ocorrem nesses serviços de saúde, aproximadamente, 400.000 eventos adversos evitáveis relacionados a medicamentos (Bates, 2007).

Estudos que se propõem a analisar os tipos de erros de medicação e suas causas, assim como as classes farmacológicas envolvidas, são relevantes para evidenciar os problemas existentes no processo de medicação. Investigações realizadas para analisar erros de medicação segundo a classe terapêutica, identificaram que a freqüência desse evento com antimicrobianos varia de 4,9% a 39% (Rissato, 2005). Esses resultados são preocupantes, pois os antimicrobianos representam uma das classes mais prescritas em hospitais, sendo responsáveis por uma parcela elevada das despesas com medicamentos. É também crescente a preocupação com o uso inadequado, considerando-se que esse constitui o principal fator associado ao aparecimento de resistência microbiana (Murthy, 2001; Muto et al., 2003; Levy, Marshall, 2004).

A identificação dos erros de medicação com antimicrobianos pode auxiliar no desenvolvimento de novas práticas que garantam o uso adequado e racional dos medicamentos, aumentando, assim, a segurança do paciente. Dessa maneira, os objetivos desse estudo foram identificar e analisar os erros de medicação com antimicrobianos durante o processo de administração de medicamentos em cinco hospitais brasileiros, e determinar as características farmacológicas dos antimicrobianos associados a erros.

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de um estudo multicêntrico, com delineamento exploratório, que visa a obter informações detalhadas da variável erro de medicação em hospitais brasileiros, buscando determinar a frequência e os fatores associados a ocorrência do evento. Considerou-se como erro qualquer discrepância entre o que estava prescrito e o que foi administrado pela enfermagem ao paciente. Nesta publicação, são apresentados os dados referentes aos erros na administração de medicamentos antimicrobianos.

A população em estudo foi composta pelas situações em que houve erro de medicação, ou seja, 1500 erros identificados em um total de 4958 observações. A unidade de análise foi a administração do medicamento.

A pesquisa foi desenvolvida em unidades de clínica médica de cinco hospitais situados nas regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. As instituições investigadas foram selecionadas, por possuírem vínculo com universidades públicas estaduais ou federais, fazerem parte da Rede de Hospitais Sentinela da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e serem campo de estágio para as instituições formadoras de profissionais de saúde do País. A unidade de clínica médica foi selecionada, por possuir leitos destinados a pacientes portadores de doenças crônico-degenerativas que, usualmente, utilizam um número elevado de medicamentos durante um longo período, englobando diversas classes terapêuticas.

A investigação foi realizada após a aprovação dos Comitês de Ética em Pesquisa e após autorização da direção dos hospitais investigados. Todos os participantes foram orientados sobre o estudo, aceitaram, por escrito, serem observados e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 1996).

Para coleta dos dados, foram realizadas observações não participantes e diretas das atividades dos profissionais de enfermagem responsáveis pela administração de medicamentos. Para tanto, quinze auxiliares de pesquisa receberam treinamento de vinte horas e durante 30 dias realizaram as observações seguindo um roteiro estruturado validado por especialistas envolvidos com a temática. Após as observações da administração dos medicamentos, os observadores confrontaram as informações obtidas com as prescrições, a fim de detectar se ocorreu algum erro de medicação. Para cada hospital, foram designados três auxiliares de pesquisa e a coleta foi realizada no mesmo período em todos os centros investigados.

Os erros de medicação foram classificados segundo a tipologia da American Society of Health System Pharmacists: erro de dose, erro de medicamento não prescrito, erro de via, erro de paciente e erro de horário (ASHP, 1993). Foi considerado erro de horário a situação em que o medicamento foi administrado em um período superior a 60 minutos de antecedência ou de atraso em relação ao horário de administração definido na prescrição ou no plano de administração elaborado pelo enfermeiro ou técnico de enfermagem.

A classificação farmacológica dos medicamentos antimicrobianos identificados nos erros foi realizada segundo o sistema anatômico terapêutico químico (ATC) do WHO Collaborating Center for Drug Statistics Methodology (WHO, 2007), e empregado pelo Centro Colaborador para o Monitoramento Internacional de Medicamentos. Os fármacos de intervalo terapêutico estreito foram identificados em fonte terciária de referência, o Drugdex (Klasco, 2007).

Os dados coletados foram transferidos para um banco de dados, elaborado no programa Epi data 3.1, com dupla digitação, validação e checagem da consistência das informações. A análise estatística foi realizada empregando o software SPSS 11.5 e consistiu de análise descritiva univariada com determinação das freqüências absolutas e relativas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados permitiram, em uma primeira abordagem, identificar e analisar os erros de medicação com antimicrobianos durante o processo da administração de medicamentos. Foram realizadas 4958 observações da administração dos medicamentos, nas quais foram identificados 1500 (30,24%) erros de medicação. Desse total, 277 (18,5%) erros envolveram medicamentos antimicrobianos e essa incidência é compatível com outros estudos publicados na literatura internacional (Benjamin, 2003; Wolf, Hicks, Serembus, 2006; Tang et al., 2007).

Os erros com medicamentos antimicrobianos foram categorizados e estratificados por forma farmacêutica, conforme apresentado na Tabela I.

A categoria de erro mais freqüente foi a de horário, envolvendo 243 (87,7%) medicamentos antimicrobianos administrados, sendo que, desses, 140 (57,6%) foram administrados com antecedência em relação ao horário planejado.

A alta incidência de erros de horário possivelmente tem como principais determinantes fatores internos ao processo de administração, como o planejamento de horário pela equipe de enfermagem, que concentra um número elevado de medicamentos em determinados períodos, geralmente o da manhã, fazendo com que aqueles que requerem pontualidade na administração, como antimicrobianos, não tenham seu horário cumprido, devido à alta demanda de serviço na unidade (Manias, Aitken, Dunning, 2005; Miasso et al., 2006). Outro fator que pode gerar erro de horário é o funcionamento inadequado do sistema de distribuição de medicamentos da farmácia hospitalar, que leva a atrasos na entrega dos medicamentos e, conseqüentemente, na sua administração (Carvalho, Cassiani, 2000).

O desconhecimento das especificidades dos antimicrobianos a serem administrados, assim como da necessidade de se cumprirem os intervalos de tempo entre as doses pode ser mais um fator que contribui para a ocorrência deste tipo de erro. A divulgação de informações sobre antimicrobianos e a capacitação da equipe de enfermagem podem ser estratégias de prevenção de erros (Hoefel, Lautert, 2006a).

Para entender o impacto dos erros com antimicrobianos na segurança do paciente, é importante destacar que a sua utilização envolve a aplicação de dois componentes farmacológicos distintos, o farmacocinético e o farmacodinâmico (Mouton et al., 2002; Castro, 2005).

O componente farmacocinético descreve os processos de absorção, distribuição e eliminação dos antimicrobianos, que determinam as concentrações sanguíneas e tissulares para uma determinada dose. Os parâmetros farmacocinéticos mais utilizados em terapia antimicrobiana são: a área abaixo da curva da concentração sanguínea versus o tempo após a administração do medicamento, a concentração sanguínea máxima e a meia vida de eliminação, que está diretamente relacionada ao intervalo de administração do antimicrobiano (Mouton et al., 2002; Castro, 2005).

O componente farmacodinâmico relaciona as concentrações sanguíneas com a atividade antimicrobiana avaliada in vitro assim como a toxicidade sobre o hospedeiro. Os parâmetros farmacodinâmicos, que são freqüentemente empregados para quantificar a atividade antimicrobiana para determinado patógeno, são as concentrações inibitória mínima e a bactericida mínima. Esses parâmetros são utilizados como valores críticos para interpretação da relação entre os parâmetros farmacocinéticos que determinam a eficácia do antimicrobiano e a sua potência. São empregados também na padronização de doses e de intervalos de administração (Castro, 2005).

A Tabela I também mostra que os erros de dose foram a segunda categoria mais freqüente, envolvendo dezenove (6,9%) medicamentos. Estes erros podem estar associados à falhas no cálculo matemático durante o preparo do medicamento (Fry, Dacey, 2007). Na casuística desse estudo, os erros de dose são preocupantes, considerando-se que, em unidades de clínica médica, é comum a internação de pacientes geriátricos, que apresentam diminuição da função hepática e renal, assim como a diminuição do metabolismo e da eliminação dos medicamentos (Merle et al., 2005; Hodgkinson et al., 2006).

A grande preocupação dos profissionais de saúde se dá com uma administração de doses superiores à prescrita, o que pode causar graves eventos adversos ao paciente, entretanto, deve haver preocupação também com a administração de doses inferiores de antimicrobianos. Não pode ser ignorado que existem riscos iminentes e que a recorrência de administração de doses superiores ou inferiores ou com intervalos inadequados em um mesmo paciente podem levar ao insucesso terapêutico (Hoefel, Lautert, 2006a).

Apesar de não existirem pesquisas que demonstrem que os erros de administração influenciam na efetividade terapêutica e na resistência bacteriana, a equipe de saúde deve estar atenta para a sua prevenção, principalmente quando os medicamentos envolvidos são antimicrobianos, considerando-se que a resistência bacteriana está associada ao uso inadequado desses fármacos. De acordo com Hoefel & Lautert (2006a), a equipe de enfermagem é responsável por assegurar uma monitorização rigorosa da administração de antimicrobianos com o controle dos horários, diluições e intervalos entre as doses, evitando a seleção de microorganismos resistentes devido a níveis plasmáticos inadequados.

A interferência dos erros de administração de antimicrobianos sobre os componentes farmacocinético e farmacodinâmico e a inter-relação com a resistência microbiana foi pontuada por Hoefel & Lautert (2006b). As autoras alertam que, independentemente do número de vezes em que doses incompletas de antimicrobianos são administradas, o que deve ser considerado é o fato de que o erro de administração pode levar a concentrações plasmáticas inferiores à concentração inibitória mínima, exercendo pressão seletiva sobre o microrganismo. Essa pressão seletiva é um dos fatores de risco para o aparecimento da resistência microbiana.

Neste contexto, fica evidente que os erros de dose e de horário podem comprometer a resposta terapêutica do antimicrobiano. A administração errada do antimicrobiano pode impedir que ele alcance o local da infecção, mantenha concentrações suficientes no foco da infecção para exercer sua ação, e permaneça no local tempo suficiente para inibir a multiplicação ou matar os microorganismos.

Ao analisar as formas farmacêuticas dos medicamentos, as de uso parenteral foram as mais freqüentemente envolvidas nos erros com antimicrobianos estando presentes em 253 (91,3%) erros. Vale destacar que 230 (94,65%) erros de horário e dezessete (89,5%) erros de dose envolveram antimicrobianos na forma para uso parenteral.

A administração de medicamentos antimicrobianos pela via parenteral corresponde a uma proporção significativa nos hospitais. Erros relacionados com a administração parenteral, principalmente os que envolvem a via endovenosa, podem apresentar ainda maior gravidade, considerando-se que a dose é administrada diretamente na corrente sanguínea, levando a um efeito rápido, sendo necessário monitorizar o paciente para a ocorrência de reações adversas. Além disso, os níveis plasmáticos do medicamento podem elevar-se e causar toxicidade, quando administrados em "bolus" ou no caso dos tratamentos prolongados (Santell, Cousins, 2005).

Com o intuito de proporcionar maior conforto ao paciente, menor risco de adquirir uma infecção hospitalar pelo uso do cateter e redução de custos, devem ser desenvolvidas políticas institucionais que estimulem a troca da terapia parenteral, principalmente a intravenosa, pela via oral, quando possível (Gunten et al., 2003).

Em uma segunda abordagem, este estudo analisou os principais antimicrobianos envolvidos nos 277 erros ocorridos no processo de administração de medicamentos. Na Tabela II, eles serão apresentados segundo as categorias de erros de medicação e, na Tabela III, conforme as classes anatômica terapêutica-química. Vale salientar que, na administração de um mesmo medicamento, foi identificado mais de um erro.

Entre os antimicrobianos associados com erros estão as cefalosporinas de terceira geração e as penicilinas de amplo espectro, grupos que têm contribuído para o aumento da resistência de bactérias produtoras de beta lactamase extendida. Atualmente, esses microrganismos também representam uma grande preocupação referente à resistência bacteriana (Hoefel, Lautert, 2006b).

A ceftriaxona, cefalosporina de terceira geração, foi o medicamento envolvido no maior número de erros no presente estudo. A elaboração conjunta pela equipe de enfermagem e de farmácia de um manual de utilização de medicamentos abordando aspectos como preparo, esquemas de administração, interações, incompatibilidades, reações adversas é uma iniciativa que contribui para a segurança da utilização de medicamentos (Bucknall, 2007).

A Tabela II também aponta que os erros detectados durante a administração de vancomicina, fármaco de intervalo terapêutico estreito, correponderam a segunda posição em frequência absoluta. Ressalta-se que houve erros de dosagem e que a superdosagem de vancomicina pode gerar nefrotoxicidade. Outra consequência da administração inadequada é a síndrome do homem do pescoço vermelho, que pode ocorrer devido a erros de diluição e no tempo de administração, trazendo danos ao paciente (Klasco, 2007).

Entretanto, a maior preocupação é com a resistência dos microrganismos à vancomicina. A redução da sensibilidade do Staphylococcus aureus à vancomicina representa uma grande preocupação, por se tratar de uma das últimas opções terapêuticas a esse microrganismo. Outra questão alvo de maior ou igual preocupação é a resistência de Enterococcus à vancomicina (Muto et al., 2003). O surgimento de resistência pode ser favorecido por erros de horário e de dose.

Neste estudo também foi identificado que seis (16,7%) medicamentos antimicrobianos associados com erro possuíam intervalo terapêutico estreito. Vale destacar que 47,4% dos erros de dose e 21,8% dos erros de horário envolveram antimicrobianos de intervalo terapêutico estreito, sendo vancomicina, amicacina e clindamicina os principais fármacos associados. Diante de medicamentos com essa característica, é possivel inferir sobre a possibilidade de danos aos pacientes devidos à superdosagem e de impacto sobre a resistência devido aos níveis plasmáticos reduzidos.

Deve ser ressaltado, também, que os medicamentos de intervalo terapêutico estreito necessitam de monitorização terapêutica, a fim de determinar a dose que produza o máximo de efetividade aliada ao mínimo de efeitos tóxicos. O conhecimento da equipe de enfermagem sobre medicamentos de intervalo terapêutico estreito é importante para garantir tanto a administração correta do medicamentos como o preparo correto do paciente, assim como para a decisão e programação multidisciplinar de coleta das amostras sanguíneas, quando a monitorização laboratorial for necessária.

A magnitude do problema dos erros com antimicrobianos em nosso meio foi primeiro demonstrado em uma pesquisa enfocando iatrogenia com antibióticos em terapia intensiva que detectou uma discordância de 38,6% entre o número de doses prescritas e o número de doses administradas e redução de 85% no número de doses administradas (Manenti et al., 1998). Estudo mais recente analisou erros de administração com um antimicrobiano específico, o cefepime, demonstrando que o problema continua ocorrendo em serviços de saúde (Hoefel, Lautert, 2006b).

Os 277 erros envolveram 36 medicamentos antimicrobianos, sendo 32 antibacterianos e quatro antifúngicos. Na Tabela III pode ser verificado que as fluorquinolonas (13,9%), as associações de penicilinas com inibidores de beta lactamase (13,9%) e os macrolídeos (8,3%) foram as classes mais freqüentes.

A resistência às quinolonas, classe terapêutica mais freqüente neste estudo, é um problema emergente, devido ao crescente número de cepas hospitalares de Enterobacteriaceae e Pseudomonas aeruginosa resistentes às quinolonas. Investigações buscando elucidar os fatores desencadeantes dessa resistência verificaram que a redução das concentrações plasmáticas devida à diminuição da absorção por interação com cátions di- ou trivalentes pode explicá-la (Quain et al., 2005, Barton et al., 2005). Os erros de horário podem levar à ocorrência de interações que comprometem a absorção, pois aumentam a probabilidade de co-administração de medicamentos.

A incidência das infecções fúngicas teve um aumento significativo nos últimos anos. Paralelamente, pode ser observada uma gravidade maior dessas infecções, principalmente nos pacientes hospitalizados (Lagrou et al., 2007). Sendo assim, a identificação de quatro antifúngicos associados com erros de administração desperta preocupação, considerando-se a situação clínica dos pacientes para os quais é prescrita essa terapêutica.

Assim como o uso irracional, os erros de medicação com antimicrobianos têm conseqüências individuais e coletivas, porque, além de afetarem o indivíduo que faz uso do medicamento, afetam de maneira significativa a microbiota do ambiente hospitalar. Essas conseqüências abrangem desde a elevação dos gastos com medicamentos, inefetividade terapêutica, aumento da hospitalização devido a eventos adversos, recrudescimento das infecções até o mais grave, o aumento da resistência microbiana.

É consenso que a prevenção da resistência microbiana envolve ações multidisciplinares centradas principalmente no uso racional de antimicrobianos e na otimização das ações de controle de infecções (Murthy, 2001; Muto et al., 2003). As publicações internacionais apresentam as atividades do farmacêutico e do médico no controle da resistência microbiana, porém, apesar de ressaltarem a participação do enfermeiro no grupo multidisciplinar, não explicitam claramente quais seriam suas ações no controle do uso de antimicrobianos. Diante dessa problemática, Bisset (2006) apresentou um conjunto de recomendações para controle e redução do risco de resistência microbiana e destacou que a equipe de enfermagem deve conhecer a política institucional de antimicrobianos e protocolos de utilização para assegurar que a terapêutica antimicrobiana seja realizada segundo as melhores práticas clínicas.

No sentido de delinear ações de prevenção de eventos adversos com antimicrobianos, é importante considerar que os erros de administração, assim como os de medicação em geral, apresentam múltiplos determinantes. Nessa perspectiva, a identificação dos fatores determinantes dos erros, por meio de ferramentas da qualidade, como a análise de causa raiz, bem como a implementação de medidas preventivas e alterações de processos, são essenciais para o aprimoramento da assistência e para segurança do paciente (Ackroyd-Stolarz, Hartnell, MacKinnon, 2005; Manasse Junior, Thompson, 2005).

Entre as medidas preventivas efetivas podem ser citadas: dupla checagem das diluições e cálculos da dosagem dos medicamentos, atenção aos erros de comunicação advindos da prescrição médica, cuidado com as informações verbais, identificação segura do paciente bem como a orientação sobre sua farmacoterapia (Manasse Junior, Thompson, 2005; Bates, 2007). Outra estratégia recomendada é a participação do farmacêutico clínico na unidade de internação como um elemento-chave dentro da equipe de saúde para realizar o seguimento da farmacoterapia e contribuir para o uso racional de medicamentos (Kucukarslan et al., 2003; Scheneider, 2007).

O conhecimento da equipe de saúde em farmacoterapia contribui significativamente para a prevenção de erros de medicação (Ackroyd-Stolarz, Hartnell, MacKinnon, 2005). Dessa forma, é recomendável que haja investimentos em educação continuada, cursos de reciclagem e treinamentos periódicos, incentivo à realização de investigações científicas sobre o sistema de utilização de medicamentos, inclusive em relação aos erros de medicação, com a finalidade de identificar suas causas e propor melhorias.

CONCLUSÕES

Os estudos multicêntricos que abordam a temática dos erros de medicação, usando técnica de observação não participante, são estratégias adequadas para conhecer a utilização de medicamentos em hospitais e contribuir para a implementação de medidas preventivas. Investigações devem ser realizadas para melhorar a prática e aumentar a segurança do paciente na utilização dos antimicrobianos e garantir seu uso racional evitando os erros de medicação.

Ações para promover o uso racional de antimicrobianos envolvendo todas as fases do processo de utilização devem ser desenvolvidas pelas comissões de farmácia e terapêutica e de controle de infecção hospitalar, visando a conter a expansão da resistência microbiana nos serviços de saúde. Os profissionais de saúde presentes nessas comissões devem, ao participar do planejamento das ações preventivas e educativas, incorporar aspectos que explicitem claramente suas atividades e funções na prevenção da resistência microbiana e no uso racional de antimicrobianos. Paralelamente, a equipe de saúde deve ser conscientizada da importância do uso seguro de antimicrobianos para o controle da resistência.

Para garantir a segurança do paciente, é essencial conscientizar os profissionais de que uma resposta terapêutica adequada e sem danos ao paciente é responsabilidade de toda a equipe de saúde. A abordagem dos erros de medicação de forma sistêmica é essencial na implantação e melhoria das práticas assistenciais visando maior segurança no cuidado em saúde.

Os dados apresentados demonstram a importância de medidas de prevenção com abordagens multidisciplinar e interdisciplinar e promoção de uma cultura de segurança com enfoque educativo e não punitivo. O erro de medicação é evitável e deve ser analisado e revertido em educação e melhoria do sistema, promovendo o fortalecimento do processo de administração de medicamentos tornando-o mais seguro.

AGRADECIMENTOS

Aos coordenadores locais do projeto multicêntrico Flávio Trevisan Fakih e Maria Ludermiler Sabóia Mota. Pesquisa patrocinada pela FAPESP E CNPq.

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Recebido para publicação em 29 de outubro de 2007
Aceito para publicação em 18 de dezembro de 2007

* Correspondência:
T. C. Marques
Departamento de Enfermagem Geral e Especializada
Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo
Av. Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre
14040-902 - Ribeirão Preto - SP, Brasil
E-mail: tatianecm@hotmail.com

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4 de dezembro de 2008
Formigas como veiculadoras de microrganismos em ambiente hospitalar

Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Vol. 41 no. 5 Uberaba Sept./Oct. 2008

Ants as carriers of microorganisms in hospital environments

Rogério dos Santos PereiraI; Mariko UenoII

IDepartamento de Biologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, SP
IIInstituto Básico de Biociências, Universidade de Taubaté, Taubaté, SP

Endereço para correspondência

RESUMO

Existe preocupação sobre as reais possibilidades de agravos à saúde pública que possam ser causados pela veiculação de agentes patogênicos através de formigas urbanas. O presente trabalho teve por objetivo isolar e identificar os microrganismos associados às formigas em ambiente hospitalar. Foram coletadas 125 formigas, da mesma espécie, em diferentes unidades de um Hospital Universitário. Cada formiga foi coletada com swab embebido em solução fisiológica e transferida para um tubo com caldo Brain Heart Infusion e incubados 35ºC por 24 horas. A partir de cada tubo, com crescimento, foram realizadas inoculações, em meios específicos, para isolamento dos microrganismos. As formigas apresentaram alta capacidade de veiculação de grupos de microrganismos, sendo que 63,5% das cepas eram bacilos Gram positivos produtores de esporos, 6,3% eram bacilos Gram negativos, cocos Gram positivos corresponderam a 23,1% das cepas, 6,7% eram fungos filamentosos e 0,5% eram leveduras. Desta forma, pode-se inferir que as formigas podem ser um dos responsáveis pela disseminação de microrganismos em ambientes hospitalares.

Palavras-chaves: Formigas. Vetores. Microrganismos. Hospital.


ABSTRACT

Concern exists regarding the real possibility of public health threats caused by pathogenic agents that are carried by urban ants. The present study had the objective of isolating and identifying the microorganisms that are associated with ants in hospital environments. One hundred and twenty-five ants of the same species were collected from different units of a university hospital. Each ant was collected using a swab soaked with physiological solution and was transferred to a tube containing brain heart infusion broth and incubated at 35ºC for 24 hours. From each tube, with growth, inoculations were made into specific culturing media, to isolate any microorganisms. The ants presented a high capacity for carrying microorganism groups: spore-producing Gram-positive bacilli 63.5%, Gram-negative bacilli 6.3%, Gram-positive cocci 23.1%, filamentous fungi 6.7% and yeast 0.5%. Thus, it can be inferred that ants may be one of the agents responsible for disseminating microorganisms in hospital environments.

Key-words: Ants. Vectors. Microorganisms. Hospital.


Formigas são insetos sociais que adaptam-se com facilidade aos ambientes urbanos, instalando-se em residências e ambientes hospitalares, sua presença pode determinar a disseminação de microrganismos através da veiculação mecânica. Sendo assim, existe preocupação sobre as reais possibilidades de agravos à saúde pública que possam ser causados pela veiculação de agentes patogênicos através de formigas urbanas.

Entre os insetos sociais, as formigas fazem numerosas relações parasitárias e mutualísticas e desenvolvem várias interações com animais, vegetais, fungos e bactérias3.

A dispersão das formigas é baseada em condições climáticas, apresentando sua instalação em ambientes quentes e úmidos, locais com grande variação climática os leva a colonizar o ambiente civilizado18. Cerca de 50 espécies estão adaptadas ao ambiente urbano, e cerca de 20 a 30 espécies podem ser consideradas como praga por causar conflito com os interesses do homem4.

Os fatores que influenciam a presença de formigas nos hospitais devem-se à estrutura arquitetônica, proximidade a residências, bem como interferências climáticas, oscilações térmicas que estimulam a migração desses insetos para aparelhos eletrônicos em busca de estabilidade térmica2 e/ou embalagens de medicamentos que oferecem condições ideais para formações de ninhos, além de alimentos que podem funcionar como atrativo extra2 22.

Em levantamento realizado em um hospital na região sudeste do Brasil, revelou-se a presença de 10 espécies de formigas, sendo a mais abundante Monomorium floricola22. Lise cols13 encontraram 7 espécies de formigas em hospital em Santa Catarina.

Levantamentos realizados em doze hospitais do estado de São Paulo revelam infestação por formigas, apresentando maior índice nos berçários e nas unidades de terapia intensiva (UTI) e 16,5% das formigas coletadas apresentavam bactérias patogênicas4 5.

As formigas possuem capacidade de se deslocarem rapidamente e normalmente percorrem extensas áreas, o que sugere, que, além de constituírem vetores de microrganismos em ambientes intra-hospitalares, podem agir também como importantes vias de dispersão de resistência a drogas nestes ambientes17. Tornando-se de alta periculosidade, a presença de formigas em ambientes hospitalares, constitui riscos em potencial na veiculação de microrganismos patogênicos que podem causar infecções hospitalares2 4.

Entre os artrópodes que podem ser colonizados por cepas bacterianas hospitalares, quando em infestação em ambiente nosocomial, são as moscas, baratas e formigas9. Estes organismos transportam microrganismos de um lugar a outro, podendo promover infecções cruzadas10 15.

Sramova e cols20 descreveram os artrópodes como importantes vetores de microrganismo, destacando que de um total de 116 cepas isoladas, 88% constituem bacilos Gram negativos: Escherichia coli, Enterobacter spp, Klebsiella spp, Citrobacter spp, Proteus spp, Serratia spp, Pseudomonas spp e Acinetobacter spp e 12% constituem cocos Gram positivos tendo como representantes Staphylococcus coagulase negativos.

Segundo Boursaux-Eude e Gross3 algumas espécies de formigas, veiculam, em ambiente hospitalar, agentes patogênicos como: Serratia marcescens, Citrobacter freundii, Klebsiella ozaennae, Enterobacter aerogenes, Proteus mirabilis, Staphylococcus epidermidis e Yersinia pestis, podendo aumentar o risco de infecção hospitalar.

Dois terços de enterobactérias isoladas a partir de artrópode apresentam resistência a pelo menos 3 grupos de antibióticos, mesmo entre cepas pouco freqüentes como Morganela spp e Hafnia spp. Esta multi-resistência também é observada entre o grupo dos Gram positivos20.

Este trabalho teve por objetivo avaliar a presença bactérias e fungos, associadas às formigas, em quatro setores de um hospital universitário.

MATERIAL E MÉTODOS

Coleta do material. A coleta das formigas foi realizada no Hospital Universitário da Universidade de Taubaté, no período de fevereiro a julho de 2005. Swabs umedecidos em solução fisiológica foram utilizados para coletar as formigas, individualmente, em uma mesma trilha. Foram coletados 125 formigas, sendo 25 no Hemonúcleo, 40 na Clínica Médica, 30 na Ortopedia e 30 na Lavanderia, setores nos quais a freqüência de trilhas de formigas, no piso e/ou parede, era alta em relação à outras unidades do hospital universitário .

Isolamento dos microrganismos e identificação de microrganismos. Cada formiga foi mergulhada em tubo de ensaio contendo caldo Brain Heart Infusion e incubada a 35ºC por 24 horas. A partir dos tubos que apresentaram crescimento foram realizadas semeaduras por esgotamento, em diferentes meios de cultura. Placas contendo ágar MacConkey foram incubadas a 35ºC por 24 horas; placas contendo ágar Sabouraud dextrose com clorafenicol, a 35ºC por 2 a 7 dias, posteriormente a temperatura ambiente por 10 dias; placas contendo ágar sangue foram repicadas em duplicata e divididas em série 1 (os componentes da primeira réplica) e série 2 (os componentes da segunda réplica). As placas da série 1 foram incubadas a 35ºC por 24 horas. As placas da série 2 foram incubadas a 35ºC em atmosfera de 5% de CO2 por 48 horas.

De acordo com as características morfotinturiais, seguiu-se a identificação específica. Bastonetes Gram negativos foram submetidos à série bioquímica para identificação. Cocos Gram positivos foram submetidos à prova da catalase e foram semeados em ágar nutriente, com 8% de cloreto de sódio e provas bioquímicas segundo Kloos e Bannerman11.

As leveduras foram identificadas segundo Sindrim e Moreira19. Os fungos filamentosos foram repicados em placas contendo ágar Sabouraud e incubados à temperatura ambiente por 10 dias, para a obtenção da colônia gigante. A identificação procedeu-se com a observação de verso e reverso das colônias em especial sua pigmentação. Para cada colônia foi feito um microcultivo e incubado à temperatura ambiente por 10 dias. Após este período as lamínulas foram retiradas e colocadas sobre outra lâmina estéril com uma gota do corante azul de metileno, e sua morfologia foi observada em microscopia de luz. A identificação baseou-se na chave de Famílias Eumycota, segundo Lacaz e cols12.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Das amostras coletadas, 123 (98,4%) apresentaram crescimento. Este resultado mostra a possibilidade de veiculação mecânica e/ou biológica de microrganismos, igualmente aos estudos anteriores descrito por Bueno e Campos-Farinha4; Boursaux-Eude e Gross3; Zarzuela e cols22 e Bueno e Campos-Farinha5. Este fato associado às características biológicas das formigas pode defini-las como potenciais veiculadoras de microrganismos e sua infestação em ambiente hospitalar como um risco à saúde pública2, bem como em residências, estabelecimentos de alimentação6, indústrias e laboratórios10.

Foram isoladas 208 cepas sendo: bacilos Gram positivos esporulados 63,5%, bacilos Gram negativos 6,3%, cocos Gram positivos 23,1%, fungos filamentosos 6,7% e leveduras 0,5% (Tabela 1).

Segundo Tresoldi e cols21 a freqüência de microrganismos isolados em infecção hospitalar foi 56,5% de bacilos Gram negativos, 20,9% de cocos Gram positivos e 9% de leveduras, a possibilidade de veiculação de microrganismos e a sua presença no ambiente nosocomial pode agir de forma a manter ou aumentar tais estatísticas.

Dentre os cocos Gram positivos 19 (59,2%) cepas foram identificadas como Staphylococcus coagulase-negativos (SCN). Micrococos ou estomatococos, juntos representaram um total de 29 (40,2%) cepas.

É crescente a importância dos SCN, atualmente, representa um dos grupos mais isolados em infecções hospitalares14. Staphylococcus epidermidis é reconhecido como o principal agente etiológico de bacteremias, infecções pós-operatórias, infecções do trato urinário.

Foram identificadas 13 espécies de enterobactérias (Tabela 2). As enterobactérias são comuns entre os insetos e são transmitidas de um indivíduo para outro de modo horizontal, mas podem ser adquiridas no ambiente, demonstrando assim capacidade de veiculação e manutenção do microrganismo no ambiente.

Fowler e Bueno10 indicaram alta freqüência acumulada, de microrganismos, isolados de formigas dos gêneros: Klebsiella, Serratia e Enterobacter, semelhante aos dados encontrados nesta pesquisa. Estudos na Índia indicam a disseminação tanto de organismos da família Enterobacteriaceae bem como da família Pseudomonadaceae6.

Os bacilos Gram positivos representaram 63,5% dos isolados. A capacidade de formar endosporos, permite a instalação destas espécies em locais de grande instabilidade ambiental. A alta capacidade de adaptação permite entender a relação com as formigas como sendo uma simples sobreposição de nicho, mas como observados no homem, podem estar presentes na microbiota normal deste inseto, neste caso as formigas estão agindo tal qual o homem1 como veiculadores biológicos deste grupo de organismos ou apenas transportando na forma de endosporos ou células vegetativas, mas em condição limitada.

A versatilidade torna-os, se não organismos invasivos com alto fator de virulência conquistada por questões ecológicas, oportunistas sendo fator de alta relevância a grande incidência do número de isolados, pois podem estar associados ao grande poder de disseminação promovida pelas formigas, podendo contribuir com o aumento nas infecções hospitalares2 10.

Apenas uma cepa de levedura foi isolada identificada como Candida tropicalis. Embora o número de isolados seja pequeno para uma inferência biológica, é relevante entender que estes organismos estão amplamente distribuídos no ambiente, por apresentarem ampla capacidade de exploração e colonização de substratos orgânicos vivos ou em decomposição. Sua veiculação em ambiente hospitalar torna-se um risco à saúde pública18, dada a grande concentração de imunodeprimidos1.

Foram identificadas 14 espécies fungos filamentosos, conforme apresentada na Tabela 3.

É possível associar as formigas aos fungos devido ao ambiente explorado por estes insetos, que coincide com as condições fisico-químicas propícias para a proliferação destes microrganismos18. Estas condições são, muitas vezes, criadas pelas formigas de forma a conseguir benefícios desta associação, oferecendo situação propícia para a proliferação de fungos de modo geral, devido a semelhança da biologia destes microrganismos8.

A constatação destas associações, tal qual com bactérias, pode ser considerada de grande problema para a sociedade tendo em vista a grande capacidade de adaptação das formigas ao ambiente urbano5 22, pois ela potencializa a capacidade de dispersão dos fungos, tanto de forma mecânica transportando seus propágulos, contraídos de ambientes contaminados, para locais e/ou objetos não contaminados quanto de forma biológica, atuando como reservatórios de fungos patogênicos ao homem, onde os fungos instalados em sua cutícula disseminam por todo o ambiente.

Estudos da contaminação, por fungos, de ambientes hospitalares na Grécia, demonstram que 70,5% dos isolados são do gênero Aspergillus, tendo maior prevalência de Aspergillus niger, Aspergillus fumigatos, Aspergillus flavus16. No Brasil, existe uma prevalência maior, por características adaptativas, da espécie Trichophyton rubrum7.

Concluiu-se que os resultados obtidos demonstram a grande capacidade das formigas em manter associações com bactérias: cocos Gram positivos, bacilos Gram negativos e bacilos Gram positivos, da mesma forma e mesmo tempo conseguem manter associadas a fungos leveduriformes e filamentosos. Bem como estes microrganismos podem apresentar multi-resistências a uma variedade de antibióticos sendo um fator de risco nas infecções hospitalares, quando em infestações nestes ambientes.

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Endereço para correspondência:

Dra. Mariko Ueno
Instituto Básico de Biociências/UNITAU
Rua Tiradentes 500, Campus Bom Conselho
12030-180 Taubaté, SP
Tel 55 12 3629-7909
e-mail: mariueno@unitau.br

Recebido para publicação em 03/12/2007
Aceito em 27/08/2008

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1 de outubro de 2008
An atypical microfilaria in blood samples from inhabitants of Brazilian Amazon
Original Paper
Parasitology Research
Founded as Zeitschrift für Parasitenkunde
© Springer-Verlag 2008
10.1007/s00436-008-1164-4

Original Paper

Y. L. Adami1 Contact Information, M. A. P. Moraes2, R. M. Lanfredi3 and M. Maia-Herzog1

(1) Laboratório de Simulídeos, Referência Nacional em Simulídeos, Oncocercose e Mansonelose, Pavilhão 108, sala 09, Instituto Oswaldo Cruz, FIOCRUZ, 21045-900 Rio de Janeiro, Brazil
(2) Centro de Anatomia Patológica, Hospital Universitário de Brasília, Via L2 Norte SGAN 604/605 Módulo C, 70840-050 Brasília, Distrito Federal, Brazil
(3) Laboratório de Biologia de Helmintos Otto Wucherer, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 21949-902 Rio de Janeiro, Brazil

Contact Information Y. L. Adami
Email: yaraadami@ioc.fiocruz.br

Received: 25 June 2008 Accepted: 13 August 2008 Published online: 9 September 2008

Abstract An unindentified microfilaria sharing characteristics with Mansonella ozzardi and Onchocerca volvulus was detected in blood samples from seven human volunteers, inhabitants of a community in the border of Amazonas and Acre State. They were detected during epidemiological studies carried out in some communities along Antimary, Acre, and Purus Rivers in the Brazilian Amazon. The most striking difference was presented in the shape of the cephalic space from this microfilaria which was different from those of M. ozzardi and with similarities to O. volvulus in this region, but no remarkable differences were observed at the caudal region. More accurate studies are being carried out in order to provide additional data and supporting evidences before establishment of a new species can be done.

Mansonella ozzardi is a filarial parasite autochthonous in the American Continent, and its distribution is reported in the Caribbean Islands, Central and South America. In Brazil, it was first detected in blood samples from inhabitants of Manaus (Amazonas State) by Maria Deane in 1949. Thereafter, further studies were carried out in order to provide data about distribution and prevalence of this filarial nematode in our country. Thus, human infections are frequently found in the State of Amazonas-along Solimões, Purus, and Negro Rivers, its most important area of distribution (Batista et al. 1960). In this region, transmission is related to the blackflies Simulium amazonicum and Simulium argentiscutum whose distribution in the area frequently overlaps (Shelley et al. 1980; Moraes et al. 1985). Although the larval stages are found in blood samples of infected individuals, sometimes with high parasitic loads, the parasite is not considered of medical importance as its pathogenicity is still subject of controversy in the literature (Deane et al. 1953; Rachou 1957; Restrepo et al. 1962; Jörg 1983).

Experimental infection in Erythrocebus patas has been successful in obtaining adult worms of M. ozzardi (Orihel et al. 1993), but these forms collected from human beings are not well described and its real localization in human tissues is still obscure. The difficulty to obtain adult worms from this parasite turns its diagnose based only in the morphology of the larval stages-the microfilaria-that can be easily found into the peripheral blood of infected individuals.

Unlike M. ozzardi, Onchocerca volvulus has pathogenicity and distribution well established and human infections by this parasite are found among Yanomami Indians from border region with Venezuela in the States of Amazonas and Roraima (Shelley 2002).

Adult stages of O. volvulus may be found and extracted from subcutaneous nodules where they are dwelling and its larval stages lyes in to the skin but it was demonstrated that the parasite may be found in the peripheral blood of up one third of infected people in hyperendemic communities (WHO 1987). M. ozzardi presence have been reported to occur in samples of the skin (Moraes et al. 1983), and this was already cause of some misunderstandings in the past.

The standard methods employed for detecting M. ozzardi and O. volvulus infections in humans are, thus, based on the detection of the microfilarias in blood and skin samples, respectively, and the morphological discrimination of them. The characteristics of a typical microfilaria are well described (Orihel and Eberhard 1982) and some anatomic markers such as body length, cephalic space, shape of body nucleation, nerve ring, terminal nucleation of the tail, and tail space can be discerned through light microscopy studies (Kozek et al. 1983).

During a malaria survey conducted in some communities along Acre River, serum samples were collected and sent to our laboratory in order to evaluate its reactivity in an enzyme-linked immunosorbent assay test with Ov10, Ov11, and Ov16 recombinant proteins from O. volvulus. Surprisingly, 40% of the samples from a community named Vila Antimary (a non endemic area for O. volvulus) had positive reactions. Although these tests cannot be used to define the presence and level of infection, they are effective as an epidemiological tool to provide information about incidence of exposure and, therefore, transmission of the parasite (Bradley and Unnasch 1996). The possibility of O. volvulus presence along Acre River was subsequently investigated by Marilza Maia-Herzog and Anthony J. Shelley in the area and they found microfilarias in skin snips from human volunteers morphologically similar to M. ozzardi and with some characteristics movements of O. volvulus (personal communication). Unfortunately, some difficulties were faced in the field mainly due to the precarious conditions in the area and this material was lost during the process of fixation. However, some part of the collected skin snip was sent to Dr. Rory Post at the Natural History Museum in London for polymerase chain reaction examination, and parasite DNA studies showed only M. ozzardi in the area (Shelley 2002).

The present report involves an active filarial epidemiological survey carried out on the border of Amazonas and Acre States along the Antimary, Acre, and Purus Rivers and a light microscopy study of the microfilarias found in the area.


Venous blood samples collections were performed in a 10-ml sterile and disposable syringe and thick blood films were prepared at the moment of collection followed by dehemoglobinization, fixation in methanol and staining with Giemsa in order to detect M. ozzardi infections. To minimize false negative results, 1 ml of venous blood was deposited in a polystirene tube with 10 ml of a 2% formaline solution for Knott's Method (Knott 1939) and after a period of 12 h, thin films were prepared with the deposited sediment, fixed with methanol, and stained with Giemsa.

O. volvulus infections were searched through skin biopsies which were taken from scapula and iliac crest using a HolthR Sclerocorneal Punch. Each skin snip was placed in a slide with distilled water for 6-12 h to permit microfilaria to migrate from the tissue. Then, the skin snip was removed and placed in numbered Eppendorffs with absolute ethanol (for further molecular analysis), and the slide was allowed to air-dry, fixed with methanol, and stained with Giemsa. In order to avoid losses during material preparation, distilled water and reagents were carried by our group to the field.

All specimens were returned to our laboratory at FIOCRUZ/Rio de Janeiro for accurate examination.

Blood and skin snips samples were collected from volunteers of Mapinguari (n = 67), Porto Acre (n = 129), Andaraí (n = 10), Vila Antimary (n = 56), and the Kamikuã Indian Village (n = 7).

The study design, including its ethical aspects, was reviewed and approved by an Ethical Comitee from FIOCRUZ (Parecer 281/05).


The evaluation of filarial infections in all localities surveyed is presented in Table 1. Blood samples from Knott's Method from all volunteers contained typical microfilaria of M. ozzardi, as previously described (Kozek et al. 1983). The measurements found were 225.6 μm (198-243/n = 21), 228.3 μm (212.2-247.7/n = 8) and 220 μm (207.6-239.7/n = 6) in length, and 3-4 μm in diameter for samples from Kamikuã Village, Vila Antimary, and Porto Acre, respectively.

Locality

Knott's method positive (examined)

Infection rate (%)

Mapinguari

0 (67)

0

Porto Acre

5 (129)

3.8

Andaraí

1 (10)

10

Vila Antimary

12 (56)

21.4

Kamikuã Village

6 (07)

85.7

M. ozzardi microfilaria have an anterior region with a cephalic space that ends when the nuclear column begins, with an initial detailed nucleus followed by two that seems attached. Then, the nuclear arrangement proceeds with two or three paired nuclei until they reach some discontinuities, which correspond to locations as nerve ring and excretory vesicle (Fig. 2a). Posterior extremity with an initial discontinuity-corresponding to the anal vesicle-with nuclei apparently attached to each other, paired or even in single line but these structures do not reach the tip of the tail. On the contrary, seven to nine nuclei form a line and an annucleate region is attained-the caudal space that finishes in a hook shape (Fig. 2b).
MediaObjects/436_2008_1164_Fig2_HTML.gif
Fig. 2 Comparison of typical M. ozzardi microfilaria and the atypical one found in blood samples from human volunteers in Vila Antimary. a Characteristic M. ozzardi microfilaria showing cephalic space and b detail of the tail. c Anterior region of atypical microfilaria with two paired nuclei at the anterior region and d detail of tail and caudal space (scale bars = 7 μm)

However, 12.5% of the volunteers infected and enrolled in agricultural activities from Vila Antimary presented besides M. ozzardi, an unusual form of microfilaria whose main difference could be noted at the anterior region (Fig. 2c). These forms have two paired nuclei after the cephalic space, followed by a single one, and afterwards begin the proceeding characteristic column of nucleus. Meanwhile, no differences could be noted at the caudal region; that is, they were very similar to the pattern of nucleation with a column of nucleus close to the parasite cuticle that elongate as long as they reach the tail tip (Fig. 2d).

Analysis of the material obtained through light microscopy study from the skin snips revealed no infections with O. volvulus (data not shown).


Epidemiological studies conducted by our group in the region started in 2006, and the goal was to show distribution and occurrence of filarial infections in communities along Antimary, Acre, and Purus Rivers. This is the first report of M. ozzardi in this specific region.

Up to now, Acre State presented the lowest rates as demonstrated by our results in Mapinguari and Porto Acre, but the prevalence increased along the neighboring of Amazonas State until to reach higher levels at Kamikuã Village, an Indian community along Purus River. The suspicious of an unidentified species of microfilaria transmitted by blackflies (Diptera, Simuliidae) in the Amazonia has already been noticed (Shelley 2002). Since the sample with atypical microfilaria was lost, our efforts in the present survey were concentrated in Vila Antimary at Acre River, where that previous detection was reported.

A preliminary trial of infected or uninfected material was performed, and the positive material was submitted to an accurate morphometric study where it was possible to detect this unusual microfilaria. This larval stage in the blood material was obtained with the concentration Knott's Method and differed from all microfilarias previously found. Studies concerned with morphological differentiation of M. ozzardi and O. volvulus microfilaria has been previously described (Post et al. 2003). Both filarian species present unsheated microfilaria, and there is a general concern that M. ozzardi microfilarias are smaller than those of O. volvulus, but the ranges frequently overlap when both are found in skin samples which were a reason of misleading diagnosis in the past (Moraes et al. 1983). In the present work, we reported M. ozzardi infections, and only the samples from Kamikuã Village, Vila Antimary, and Porto Acre were analyzed through morphometry. The values obtained are in accord with those previously reported for Haitian and Colombian M. ozzardi (Kozek and Raccurt 1983) prepared through Knott's Method but are slightly different from those achieved with Brazilian samples by Post et al. (2003) what may be related to factors such as source of the material, larval developmental stage, and procedures like drying, fixation, and staining of the smear.

The unusual microfilaria presented here has some characteristics of those of O. volvulus in the cephalic space and similarities in caudal space with M. ozzardi and its measures were closer to this last one. Comparison of this microfilaria with those of O. volvulus showed that there are some resemblance at the cephalic space, which is followed by two paired nuclei following this region but that similarity was absent at the posterior extremity, where a nuclear column with 7-8 nuclei are present in a regular and aligned arrangement and a detachment from cuticle are very perceptible (Fig. 3).
MediaObjects/436_2008_1164_Fig3_HTML.jpg
Fig. 3 Whole O. volvulus microfilaria, Scale = 10 μm (photomicrography from A. J. Shelley)

Some questions raised from these results: do these microfilarias belong to an unknown human filarial species or even to a species parasite of an animal? Are they morphological variations of M. ozzardi? Further morphological, ultrastructural, and molecular studies are being carried out in our laboratory in order to provide additional evidences capable to answer these questions.

Acknowledgements We wish to thank Dr. Sixto Coscaron for his suggestions on the manuscript, Prof. Eduardo José Lopes Torres for helping me with the photographic material and Ana Carolina Valente for technical assistance. Brazilian financial support: Instituto Oswaldo Cruz, Coordenação de Pós Graduação em Biologia Parasitária, FarManguinhos, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior, Programa CAPES - PROCAD, Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria Estadual de Saúde do Acre, and Fundação de Tecnologia do Acre.

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Nome: Evandro Ferreira
Cidade: Rio Branco-Ac, Brazil
Quem sou eu: Acreano, nascido em Rio Branco, Pesquisador do Inpa-Ac e do Parque Zoobotânico da UFAC. Mestrado em Botânica no Lehman College, New York, USA, e Ph.D. em Botânica Sistemática pela City University of New York (CUNY) & The New York Botanical Garden (NYBG). Me escreva: evandroferreira@hotmail.com
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